Dia 46 – 20180204 (No ar): Os Amish – Parte 3

Ao escrever o artigo anterior, sobre o dia 3 de Fevereiro de 2018, sábado, eu já estava em Las Vegas. Ao escrever este, sobre as cinco horas e alguns minutos que levou o voo de Cleveland a San Francisco (parada na continuação até Las Vegas), continuo em Las Vegas, agora na madrugada do dia 5, segunda-feira. Este artigo se refere ao dia “20180204 (No ar)”, porque, enquanto eu viajava, no trecho mais longo, de Cleveland até San Francisco, aproveitei o tempo para ler um livro sobre os Amish no meu Kindle. A leitura me sugeriu um terceiro artigo sobre eles, que passo a escrever. Resolvi escrever porque os meus dois artigos anteriores sobre ele foram razoavelmente bem recebidos pela crítica emanada de meus parentes e amigos… (Felizmente, meus parentes e amigos são generosos!)

O livro que eu estive a ler no voo (sem concluir a leitura) era The Amish, de Donald B. Kraybill, Karen M. Johnson-Weiner e Steven M. Nolt (já mencionado). É um livro magnífico. As ideias que aproveitei, porém, entraram no meu sangue e passaram a fazer parte de meu DNA (como dizia o Rubem Alves). Apresento-as, portanto, a partir de minha leitura, com os seus “biases” e vieses, em minhas palavras, e com os meus acréscimos (e, talvez distorções), aqui e ali, sem pedir desculpas ao leitor por isso.

A questão que quero enfocar é a seguinte: como é que um povo (os Amish) que parece tão diferente do restante do povo americano que a gente conhece e/ou imagina (o Americano Típico) acabou por existir quase que só nos Estados Unidos? Os Amish existem, hoje, em certa quantidade, também no Canadá, mas, ali, apenas em uma província, Ontario, que é, de todas as províncias canadenses, a que, talvez, mais se assemelha aos Estados Unidos: é ali que estão Toronto e a parte canadense de Niagara Falls…

Há mais complicadores ainda.

Primeiro, como vimos nos artigos anteriores, os Amish se originaram dos Anabatistas Menonitas, via Jakob Amann, que, historicamente, surgiram, podemos dizer, na Suíça Alemã (região de Zurique, Berna, Basileia), nos Países Baixos (territórios que hoje compreendem a Holanda e a Bélgica), e numa região que, na época, fazia parte da Alemanha, que ficava ao longo do Rio Reno, e que compreendia os territórios do Palatinado e da Alsácia (esta, hoje, em grande parte, pertencente à França).

Segundo, como também vimos nos artigos anteriores, os Amish, além do Inglês, ainda falam, em casa e entre eles, uma língua, que embora chamada de Dutch (ou Pensilvânia Dutch) por muitos, é uma mescla de Alemão e Holandês, ficando mais para o Alemão do que para o Holandês. Não só isso: seus cultos religiosos são nessa língua, seu hinário está nessa língua, a Bíblia que leem com regularidade é a Bíblia Alemã, etc. É possível dizer que os Amish de hoje são, em regra, todos bilíngues, falando o Inglês e esse dialeto do Alemão. Essa é uma característica essencial deles que eles relutam em abandonar.

Terceiro, ao rodar pelo território Amish que fica no Condado de Holmes, em Ohio, são ostensivamente visíveis sinais representativos de outros elementos dessa cultura suíça-alemã-holandesa (nada da cultura francesa ou belgo-francesa), como bandeiras, referências históricas à herança cultural de lá trazida pelos Amish, etc. Ou seja, os Amish, apesar de estarem nos Estados Unidos desde os séculos 18 e 19, ainda prezam e, em parte, cultivam, a herança europeia que eles consideram parte integrante de sua vida até hoje.

Diante disso, é legítimo perguntar: os Amish são verdadeiramente americanos? Ou será que eles, como os indígenas ou aborígenes americanos, devem ser vistos mais como uma “micro nação”, com certa autonomia consentida, dentro da nação americana? Afinal de contas, eles não prestam juramento aos símbolos da nação americana, não servem nas Forças Amadas americanas, não trabalham no (ou para o) governo americano, não enviam seus filhos para a escola pública americana, não fazem uso dos serviços de saúde e seguridade americanos (que o Obama tentou socializar e universalizar), não pagam os impostos e a taxas destinados a custear os serviços de educação, saúde e seguridade do governo dos Estados Unidos, falam, na intimidade, uma língua estrangeira, valorizam, em sua vida, elementos, que consideram essenciais, de uma cultura alheia e estranha que, nem mais nos países de origem, são tão valorizados assim… Como é que podem ser considerados americanos – ou, mais sério, como é que podem se considerar (também) americanos, pois assim se consideram (embora nunca se designem como “Amish-American”)?

O livro The Amish deixa claro que, para os Amish, a nacionalidade deles é americana, e que, para eles, o que é Amish é a sua religião – embora a religião carregue consigo, como sói acontecer, inúmeros outros elementos culturais que não são, em uma visão mais objetiva, estritamente religiosos. Ainda mais, e mais importante: para ele, embora esses elementos religiosos e culturais que eles valorizam tenham sido construídos por seus antepassados no Velho Mundo, chegando-lhe às mãos, hoje, por essa via, lá no Velho Mundo eles foram rejeitados, violentamente perseguidos, e em muitos casos executados ou friamente assassinados pelo establishment político, cultural e religioso que era dominado, dependendo do local e do momento histórico, ora por Católicos, ora por Protestantes, e, no caso dos Protestantes, ora por Luteranos, ora por Calvinistas ou “Reformados” (num sentido semi-técnico). Ou seja: em sua terra e cultura original, os Amish foram obrigados a viver fugidos e escondidos para não se tornarem mártires – e muitos, pelo menos dois mil e quinhentos deles, foram martirizados: executados e assassinados, no fogo, na água ou na forca. A lembrança desses antepassados martirizados é revivida em todo ritual religioso Amish.

Esse fato explica a lealdade, o apego e o amor que os Amish têm pelos Estados Unidos e que os leva a dizer, sem titubear, que são americanos, e de explicar o fato, para os que insistem em não entende-lo, até com um pouco de irritação. Os Estados Unidos foram o país que lhes abriu as portas, quando eram perseguidos e executados em suas próprias regiões de origem na Europa. Os Estados Unidos foram o país que os acolheu, que nunca lhes legou o direito de ali se estabelecer, de ali adquirir propriedade, de ali viver como achavam que deviam – sem os perseguir, respeitando o compromisso que tinham com a sua consciência.

É verdade que alguns Amish já foram presos, em tempos anteriores, por se negarem a servir nas Forças Armadas, por serem pacifistas radicais que se negavam a tomar parte nas guerras do seu país, que se negavam a pagar por certos serviços que eles não usavam e não pretendiam usar. Mas, em todos esses casos, essas divergências foram resolvidas pacificamente, com negociação e com recurso à lei e aos tribunais. E os Amish ganharam o reconhecimento de uma interpretação mais justa de direitos importantes que veio servir para que os próprios americanos tivessem mais clareza acerca do que significa, de forma plena, viver a liberdade e exercer a tolerância, em uma verdadeira democracia pluralista.

Diferentemente de outros grupos que hoje se consideram minorias nos Estados Unidos, e que pretendem ver seus direitos respeitados, e que, nesse pleito, criticam, desrespeitam, e até ridicularizam e hostilizam a nação que os abriga, os Amish, mesmo discordando de vários aspectos da cultura americana, respeitam o direito dos que optam por viver de maneira diametricamente oposta à sua, da mesma forma que o seu direito de ser diferentes foi e tem sido respeitado — mas respeitam ainda mais a nação que lhes reconhece, e àqueles que deles diferem, o direito a viver em liberdade e em paz, buscando a felicidade e a prosperidade onde eles acham que ela se encontra e da forma que eles consideram correto busca-la.

Os “Americanos Típicos”, que se orgulham de sua nação e de sua tradição tolerante,  libertária e empreendedora, têm retribuído aos Amish, na forma de respeito, admiração e até mesmo carinho, o respeito, o apego e o amor que os Amish têm por sua nação e por seu país – nação e país que, ao se descrever, em seu Hino Nacional, como “a terra dos livres e o lar dos bravos”, lhes garante o direito de viver como acham certo e direito, sem impor-lhes cartilhas e ortodoxias além de igual respeito à liberdade alheia e aos direitos iguais de todos os indivíduos.

É isso. Ao ver como os Amish foram tratados e como eles tratam os outros, os “Americanos Típicos” veem, como em um espelho, o seu país e a sua nação como eles deveriam ser. Um país e uma nação de gente que pensa e vive diferente, mas que acredita que a sua liberdade, a sua autonomia, o seu empreendedorismo lhes bastam para alcançar o sucesso e a felicidade – sem se considerar vítimas, sem exigir reparações, sem institucionalizar a intolerância e o ódio.

Em Las Vegas, 5 de Fevereiro de 2018.

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