Dia 43 – 20180201: Os Amish – Parte 2

 

Houve um segundo dia na terra dos Amish: hoje, quinta-feira, 01/02/2018. Fui dormir, hoje de madrugada, às 2h e acordei às 4h20. Só dormi um pouco mais de duas horas. Ao acordar, fui reler o meu post anterior, da quarta-feira, acrescentei algumas informações, fiz pequenas melhorias no texto. Depois li pedaços de alguns livros sobre os Amish que eu comprei, e acabei por mexer mais no texto… É assim que eu escrevo os artigos dos meus blogs. Quando tenho uma ideia fico ansioso para vê-la expressa por escrito. Depois vou melhorando a forma lógica de concebê-la e a forma retórica de expressa-la. O texto nunca fica definitivamente pronto. Num determinado momento fico suficientemente satisfeito com ele para publica-lo. Mas fico sempre consciente de que o texto é ainda passível de melhoria – e até mesmo de correção, no sentido literal da palavra, porque erros sempre passam despercebidos.

Hoje de manhã, depois de revisar o artigo de ontem, fiquei dando tratos à bola para determinar o que de mais surpreendente e importante eu havia visto, lido, ou pensado sobre os Amish na quarta-feira.

Tomei conhecimento pela primeira vez da existência dos Amish quando visitei, mais de cinquenta anos atrás, em 1967, logo depois de chegar aos Estados Unidos, o Mennonite Central Committee, em Akron, PA, no coração do Amish Country da Pensilvânia. Ali por perto, ao redor de Akron e de Ephrata, vi alguns Amish andando em seus buggies. Nunca havia sequer ouvido falar sobre eles antes. A primeira impressão, em especial depois de ter sido informado sobre sua relação com a modernidade e, em especial, com as tecnologias atuais de quase qualquer tipo, foi de que os Amish eram criaturas saídas do século 17 e 18 e caídas por engano aqui nos Estados Unidos do século 20. Depois, muito gradualmente, fui angariando mais informações sobre eles, fiquei sabendo de sua atividade na agricultura e na confecção e comercialização de produtos naturais, cultivados e manufaturados sem agrotóxicos, etc., e minha impressão sobre eles melhorou um pouco. Embora em termos de estilo de vida os Amish estejam bastante distantes dos Adventistas do Sétimo Dia, em sua preocupação com o cultivo e a produção de alimentos sadios (não utilizando produtos tóxicos no seu cultivo, tomando cuidados expressos com o processo produtivo, e também envolvendo algumas preocupações dietéticas), os dois grupos me pareciam comparáveis – e essa comparação, ainda que não totalmente aplicável, foi deixando os Amish menos exóticos e mais simpáticos aos meus olhos. (Sempre tive razoável simpatia pelos Adventistas, chegando mesmo a trabalhar para eles, como consultor na área do Ensino Superior, por quase cinco anos, de 1999 a 2004. E hoje, uma de minhas filhas, a Bianca, é Adventista, por motivos inteiramente próprios).

Assim, à medida que o tempo passava, eu sempre mantinha olhos e ouvidos abertos sobre os Amish. Na década de 80 vi o lindo filme Witness, com o Harrison Ford, mencionado no artigo anterior, que apresenta os Amish de forma realista e simpática.  Depois de ver o filme, fiz questão de, por ocasião de uma das visitas à minha filha Andrea aqui na região de Cleveland, de visitar uma pequena cidade ao redor da qual viviam vários Amish, que comercializavam seus produtos numa espécie de cooperativa na cidade, que tinha um entreposto de vendas bem no centro da cidadezinha.

Mas foi somente em 2014, quando tive de ministrar um curso sobre a Reforma Protestante, no segundo semestre do ano, na Faculdade de Teologia de São Paulo, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, onde acabei trabalhando por três anos, que fiquei mais bem informado sobre a origem dos Amish, seus vínculos com os Menonitas, os vínculos destes com os Anabatistas, os vínculos destes com a chamada Reforma Radical, e a relação desta com o fenômeno mais amplo da Reforma Protestante (que eu procurei descrever no final do artigo anterior)… Fator essencial nesse processo foi a leitura do livro Radical Reformation, de George Huntston Williams. Por incrível que pareça, eu tinha um exemplar intato da primeira edição (de 1962) desse livro desde que estudei em Pittsburgh, na década de 60. Só vim lê-lo, e o fiz até com certa voracidade, quando tive de dar o curso sobre a Reforma Protestante. A primeira edição do livro já era longa, mas era fascinante. Tinha por volta de 750 páginas. A terceira edição, publicada no ano 2000, tem mais do que o dobro do tamanho (1516 páginas). Apesar do preço inacreditavelmente caro do livro (a edição impressa sai sobre quase US$ 150.00!), comprei também a terceira edição, em formato Kindle, por ser um pouco mais barata – e igualmente completa. Fiquei encantado com a história da Reforma Radical e com boa parte de seus protagonistas – embora alguns tenham se esmerado em ser pessoas controvertidas e difíceis…

Vindo no final de 2017 aos Estados Unidos, na presente viagem, procurei reservar tempo para uma visita ao mais importante agrupamento Amish de Ohio, no Condado de Holmes. A visita ficou sendo posposta para o final de nossa estada aqui – mas valeu a pena. É isso que tenho procurado transmitir nos dois artigos sobre o assunto.

Como disse no primeiro artigo, os Amish vieram para os Estados Unidos em especial no período de cerca de 120 anos que vai de 1730 a 1850. Quando houve a Guerra Civil Americana, os Amish já estavam aqui em sua maioria, principalmente nos Estados da Pensilvânia e de Ohio, que são estados do Norte. E já eram pacifistas, tendo se recusado (como também o fizeram os Quakers ou Quacres) a lutar na guerra. Nos cento e cinquenta anos que se seguiram (de por volta de 1850 até 2000), conseguiram, sem grandes problemas, manter seu estilo de vida tradicional. Mas o fim do século 20 e o início do século 21 lhes apresentaram problemas e desafios difíceis. Esse período, em que as modernas tecnologias digitais de comunicação e informação deslancharam e influenciaram todas as demais, tornando as diversas tecnologias um fator decisivo na forma em que nos comunicamos uns com os outros, acedemos às informações disponíveis, trabalhamos (até mesmo na agropecuária), estudamos por nós mesmos e aprendemos colaborativamente (dentro ou fora de escolas), nos entretemos e nos divertimos (até a televisão se tornando global), nos movemos e transportamos de um lugar para o outro, despachamos mercadorias de um ponto para o outro, etc. Tudo isso conspira, de forma mais potente do que qualquer desenvolvimento anterior, para colocar em cheque o estilo de vida dos Amish.

Muitos deles já sentiram isso e estão procurando se adaptar. Embora tenhamos, até aqui, falando nos Amish como se fossem uma unidade, há dezenas de facções ou sub-denominações dentro do movimento maior, com divergências, em especial, sobre como reagir aos desafios que a cultura externa a eles apresenta.

Só para dar um exemplo. A agropecuária tradicional e familiar que os Amish adotavam, sem qualquer mecanização ou automação, e a manufatura tradicional de produtos alimentícios, também sem qualquer mecanização ou automação, pode ter sido adequada para viver numa época mais lenta e num contexto mais local e próximo, sem muitas e grandes mudanças. Mas hoje, em que tudo acontece de forma extremamente rápida e global, em grande medida por causa da tecnologia, é difícil sobreviver, quanto mais competir no mercado, sem recorrer às mesmas tecnologias que a concorrência emprega.

Esse fato resultou na inevitável introdução, ainda que lenta, de alguma tecnologia nos processos agropecuários e de manufatura de alimentos, sem que se perdesse a qualidade e o toque artesanal que sempre caracterizaram os produtos que os Amish comercializavam. Mas o uso da tecnologia reduziu a pressão sobre a necessidade de mão de obra, e isto fez com que vários Amish tivessem que se enveredar por outros empreendimentos, dos quais os móveis, os materiais para a casa (as colchas de patchwork, as famosas patchwork quilts), objetos de decoração, em especial os que apresentam uma aparência antiga, vintage… Outros Amish, menos empreendedores, precisaram arrumar empregos junto a empregadores não Amish, em lojas, em restaurantes, em escritórios, e, nesses empregos, se viram forçados a usar tecnologia com a qual não estavam familiarizados em casa…

Os Amish são radicais, mas eles também são realistas, e sabem que não podem correr o risco que parte de sua comunidade passe dificuldades financeiras por causa de costumes que não mais se justificam… Assim, aos poucos, e de forma gradual, aceitam algumas mudanças em seu modo de ser e de viver. Mas uma coisa puxa a outra, e é difícil deter o processo de mudanças uma vez seja ele admitido e iniciado. Uma família Amish que fabricava queijos, por exemplo… Como vai ela sobreviver vendendo seus queijos artesanais, sem máquinas de padronizem os produtos, garantam a sua qualidade, diminuam o tempo de manufatura, ajudem a conservar os produtos manufaturados por mais tempo, empreguem meios mais rápidos de distribuição aos pontos de venda e de entrega direta aos consumidores finais… Como funcionar de forma eficiente e competitiva sem usar a tecnologia que, por tanto tempo, era o “bicho papão” deles, que nem um botão eles queriam empregar em suas roupas?

Diante de uma economia digital, em que os meios de produção, todos eles tecnologizados, se aperfeiçoam dia-a-dia, como se contentar com uma educação que não passa de oito anos, como resistir à formação especializada, como deixar de lado a busca constante de inovação, a pesquisa de novos produtos e criatividade envolvida na descoberta de novas formas de produção e distribuição?

O desafio colocado é principalmente este. Mas vai além. Se uma região relativamente pequena, como a que visitei ontem e hoje, recebe mais de três milhões de turistas por ano, a maior parte deles endinheirada e acostumada a ser tratada muito bem, é de esperar que esses turistas não vão se contentar em se hospedar em pequenas pousadas, em “bed & breakfast houses”, em pequenos motéis de beira de estrada (motéis, aqui, não são destinados apenas a encontros sexuais rápidos). Isso explica o surgimento de hotéis de razoável luxo e beleza como o em que me hospedei – e que conseguem oferecer tudo isso, na baixa estação, por cerca de US$ 110.00 por dia, com café da manhã incluso e estacionamento gratuito. Na alta estação o preço virtualmente dobra, por causa da demanda intensificada.

Será que os Amish vão ficar de lado e deixar apenas os “gentios” se beneficiarem desse mercado turístico? Eles, que vivem de forma simples e frugal, vão achar uma forma viável de se beneficiar da economia sofisticada, requintada, luxuosa mesmo? Ou vão argumentar (entre eles) que eles precisam sobreviver economicamente para poder dar continuidade à sua fé e à sua denominação, e, por isso, alguns de seus costumes precisam se adaptar às novas realidades?

E se fizerem isso, será que vão continuar a ser diferentes, a manter uma fé e uma conduta que os distingue e separa do resto da população?

Os cristãos primitivos eram meio comunistas, ou pelo menos comunitários, raramente admitiam a miscigenação, eram pacifistas, nem sequer trabalhavam em funções administrativas para o exército romano, recusavam-se a se envolver em funções e atividades públicas (César é uma coisa, Deus outra), etc. Mas assim que o Imperador Constantino se converteu e tornou o Cristianismo uma religião lícita, e, logo depois, assim que o Imperador Teodósio fez do Cristianismo a religião oficial do Império, o Cristianismo Primitivo não resistiu… Os Anabatistas do século XVI e XVII estavam perfeitamente conscientes desse fato. Para eles, o que aconteceu com o Cristianismo no século IV, foi quase equivalente a uma “nova queda”, como a que havia acontecido, supunham, no Éden… Nossos primeiros pais, que comiam apenas frutas e andavam pelados, de repente se perceberam em um novo mundo. Os cristãos do século IV, depois de Constantino e Teodósio, também.

Será que os Amish sofrerão uma “queda” equivalente no século 21?

Em Cortland, 1º de Fevereiro de 2018.

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