Dia 42 – 20180131: Os Amish – Parte 1

Hoje, 31/1/2018, Quarta-feira, último dia do primeiro mês do ano, estamos (a Paloma, a Andrea e eu) aqui em Sugarcreek, OH, cidadezinha que se situa no coração do Amish Country de Ohio. Ao lado de Sugarcreek estão várias outras cidadezinhas semelhantes, como Walnut Creek, Berlin, Millersburg, etc. Chegamos antes do almoço hoje e vamos ficar até amanhã, o primeiro dia de Fevereiro, depois do almoço. Estamos hospedados na magnífica “Carlisle Inn” de Sugarcreek. Coloquei várias fotos do hotel em um álbum (abastecido também pela Paloma e pela Andrea) chamado “Amish Country”, no meu perfil no Facebook. Vejam:

https://www.facebook.com/eduardo.chaves/media_set?set=a.10155996563692141&type=3

Esclareça-se que a Carlisle Inn, embora esteja em território chamado de Amish, e atenda (muito bem) aos turistas que vêm visitar a região, exclusivamente por causa dos Amish, parece não ser uma organização Amish, mas, sim, uma empresa familiar de gente que não é Amish mas tem simpatia por eles e se propõe ganhar um dinheiro atendendo os turistas que para cá se dirigem — uma média de cerca de 3,5 milhões de pessoas por ano, segundo li. Há outras Carlisle Inns na região (em Walnut Creek e em Berlin), e uma, por incrível que pareça, na Flórida, em  Sarasota. Disse “por incrível que pareça” porque poucos estados americanos destoam tanto dos Amish como a Flórida.

Almoçamos hoje no restaurante Amish chamado “The Dutchman”, em Walnut Creek, anexo à Carlisle Inn de lá. Comida excelente, preço razoável (o bufê, com opções de alimentos frios e quentes, mais sobremesas, sai por menos de US$ 15.00 por pessoa, o que aqui é barato). Nada de bebida alcoólica, porém: apenas água, sucos e refrigerantes (a água é de graça, os sucos e refrigerantes, baratinhos). Aqui o Protestantismo conservador, à moda antiga, é levado a sério. No Domingo, por exemplo, todas as lojas que são propriedade dos Amish simplesmente ficam fechadas, apesar do afluxo de turistas para a região.

(Registre-se que estamos no auge do Inverno aqui, e muitos negócios, como restaurantes e lojas, ficam fechados no período — de meados de Dezembro até o fim de Março. O mesmo acontece em Niágara, onde estivemos no início da semana. Na verdade, lá a coisa é pior ainda.)

Depois do almoço de hoje passamos uma boa hora numa loja de presentes e lembrancinhas, muito sofisticada (nada parecida com a convencional loja de lembrancinhas). Destaque para as colchas de patchwork, que tanto encantam minha irmã Eliane, admiradora e praticante da arte. Ali na loja a Andrea e eu ganhamos um presente da Paloma: uma caneta com nosso nome. Muito bonita. Depois de “browsear” pela loja, demos um passeio até Berlin, onde visitamos uma Gospel Bookstore. Lá comprei, por US$ 19.90, um DVD sobre os Amish, chamado The Amish: How They Survive (que vi tarde da noite, no hotel). Na volta de lá, paramos numa enorme loja, meio loja de departamento, meio supermercado, onde compramos algumas coisas para lambiscar antes de dormir.

Agora estamos aqui no que é o salão de café da manhã, que tem música ambiente (só hinos protestantes tradicionais orquestrados ou tocados em instrumentos, selecionados com muito bom gosto), máquina de café, chocolate e chá (todos gratuitos e à vontade), cookies e pipoca – para não mencionar uma bela lareira (que a Paloma e a Andrea alugaram) e um número enorme de confortáveis sofás e poltronas. Numa noite de Inverno é tentador ficar aqui até não aguentar mais de sono (ou até as baterias dos notebooks e smartphones descarregarem – embora haja boa quantidade de tomadas para recarrega-las).

A Paloma e a Andrea vão nadar daqui a pouco na bela piscina aquecida, à qual se tem acesso até a meia-noite. Que façam bom proveito. Eu vou continuar aqui lendo e terminando de escrever este artigo.

Estou encantado com esta região, no geral, e com a Inn em que estamos hospedados, no particular. Recomendo sem reservas uma visita à região, com estada na Carlisle Inn de Sugarcreek (que tem cerca de 60 quartos e várias outras atrações, como a já mencionada piscina aquecida, a loja em frente, e uma casa de shows do lado — só que os shows são de músicas gospel e assemelhadas…).

Mas queria dedicar o restante deste artigo a uma apresentação dos Amish para os que não os conhecem ou não estão bem familiarizados com eles. Quem viu o filme Witness [A Testemunha], de 1985 (vai fazer 33 anos este ano!!!), com Harrison Ford e Kelly McGillis, já conhece um pouco dos Amish americanos. Quem não viu, deve ver… Vale a pena. (http://www.imdb.com/title/tt0090329/). Eis aqui três fotos do filme para dar um gostinho:

Cena do Filme WIitness - 01Cena do Filme Witness - 02Cena do Filme Witness - 03

Os Amish surgiram dentro da denominação protestante chamada Menonita e até hoje têm com ela uma relação bem estreita. Quem deixa de ser Amish, provavelmente passa, no estágio seguinte, pela Igreja Menonita. Podemos dizer que os Menonitas são uma denominação protestante que surgiu dentro da ala Anabatista da chamada Reforma Radical, e os Amish são o seu ramo mais radical.

Onde está a radicalidade dos Amish?

Em primeiro lugar, os Amish são cristãos que defendem uma interpretação literal dos ensinos de Jesus sobre oferecer a outra face quando atacados. Assim, assumem uma postura de não-resistência e não-revide diante de ataques e agressões pessoais. Levada às últimas consequências, essa postura os torna pacifistas que invocam a objeção de sua consciência religiosa para não participar de guerras de qualquer tipo — nem nas de auto-defesa contra agressores externos, nem nas guerras civis, internas. O governo americano respeita esse tipo de objeção, pois considera que, se não o respeitasse, estaria violando o princípio da separação entre a Igreja e o Estado.

Em segundo lugar, os Amish interpretam a questão da separação entre a Igreja e o Estado de uma forma extremada. Eles sequer fazem o serviço militar, não trabalham para o governo de nenhuma forma, não fazem uso de serviços governamentais, e, portanto, não colocam seus filhos em escolas públicas, não fazem uso dos serviços públicos de saúde, não pleiteiam e não aceitam o seguro desemprego, a aposentadoria e pensão oferecidos pelo estado. Por isso, mediante um acordo com o governo americano, não pagam os impostos e/ou as taxas destinados a cobrir o custo desses serviços que eles, por decisão própria, não usam (resumidamente, os destinados a cobrir a Educação Pública, os Serviços Públicos de Saúde [Medicare, Medicaid, etc.] e a Seguridade Social). Pagam apenas o Imposto de Renda e os impostos embutidos, como os aplicáveis ao consumo ou à transferência de propriedade de determinados bens duráveis (como imóveis). Nenhuma lei americana impede os Amish de votar, mas a participação nas eleições sendo aqui voluntária, menos de 10% deles opta por votar regularmente (segundo consta).

Uma nota pessoal… Essa implicância dos Amish com o estado e o governo faz com que eles tenham um lugar muito especial em meu coração. Estatistas, e, por conseguinte, socialistas ou de esquerda, eles nunca vão ser. Podem também não ser exatamente liberais (como de fato não são), mas não ser estatista já é, no meu livro (i.e., em minha escala de valores), algo extremamente positivo e importante.

Em terceiro lugar, os Amish vivem razoavelmente segregados do restante da sociedade, reunindo-se em regiões e comunidades em geral rurais em que praticam um estilo de vida próprio, que enfatiza a solidariedade comunitária. Embora eu hoje seja um sitiante que vive numa região rural, essa coisa de “solidariedade comunitária”, inspirada no proto-comunismo da igreja primitiva, não me cheira muito bem… Mas, entre eles, quando alguém precisa construir um silo ou um depósito, todos os membros da comunidade se reúnem e constroem o prédio para quem precisa. Para isso possuem um fundo de reserva comum, para o qual todos contribuem, que é utilizado até mesmo para os jovens que se casam e precisam construir sua casa. Vejam as duas fotos seguintes para ter uma ideia de como a coisa funciona na prática. Concentrando todos os membros da comunidade num projeto desses, eles constroem um depósito ou paiol desse tipo em um dia.

Amish Barn - 01Amish Barn - 02

Em quarto lugar, os Amish praticam uma religião relativamente simples, com um forte componente ético, alicerçado nos ensinamentos de Jesus. Refinadas discussões de pontos complexos de doutrina não é com eles. Isso, como princípio, me agrada muito. Nesse aspecto, eles estão muito mais para Erasmo do que para Lutero ou Calvino. Quanto à postura ética, eles são extremamente honestos, verdadeiros, cumpridores de obrigações assumidas, trabalhadores, e disciplinados. Adotam ainda uma moral sexual rígida, casam-se em regra entre si, e bastante cedo, e têm muitos filhos. Quanto aos costumes, vestem-se de maneira simples e típica, que, entretanto, permite pequenas variações. Os homens usam chapéu e as mulheres uma touca na cabeça, os vestido das mulheres são longos e, não raro, cobertos por algo parecido por um avental de corpo inteiro. As roupas das mulheres têm geralmente as cores preta ou branca, azul ou rosa. As roupas dos homens geralmente são pretas. Em geral as roupas dos Amish, mulheres ou homens, não têm botões (que podem parecer adornos e representar uma concessão à vaidade), sendo fechadas com tiras de pano ou cordões. As roupas das mulheres são compridas e, em cima, vão até o pescoço. As mulheres usam cabelos longos e os homens usam barba sem bigode (mais ou menos como a minha — com a qual eu homenageio não só Abraham Lincoln, como também os Amish). Eles são, além de gente simples e humilde, gente confiável, que não se envergonha de suas crenças, do seu jeito de ser, do seu jeito de viver.

Em quinto lugar, os Amish, em regra, têm muitos filhos, como já se observou. Quem trabalha prioritariamente na agricultura geralmente tem vantagem se tiver uma família grande, forte e sadia. A população Amish dos Estados Unidos passou de cerca de 5.000, no início do século XX, para perto de 250.000 no início do século atual. Nas três primeiras fotos, abaixo, é possível perceber como as crianças são importantes na vida dos Amish. Uma das fotos da outra sequência mostra uma charrete (buggie) abarrotada de crianças — provavelmente indo para a um culto dominical. É por isso que os Amish não se dispõem a delegar ou terceirizar a educação dos filhos, sem bem mais importante, para um bando de professores desconhecidos em escolas públicas, que podem tentar doutrina-los em ideias e princípios morais contrários àqueles que os Amish adotam e defendem. A maioria dos Amish acha que uma educação equivalente a oito anos de estudos bem orientados é suficiente, e, por isso, não propicia a seus filhos uma educação correspondente à de nível médio ou, muito menos, nível superior.

Amish Peole - 04Amish People - 03Amish People - 02Amish People - 01

Em sexto lugar, numa de suas características que mais chama a atenção do restante da população, os Amish resistem à modernidade, em especial nos seus aspectos tecnológicos. Aqui, como diria o Jânio Quadros, discrepo deles. Ainda hoje eles não usam automóveis ou motocicletas, locomovendo-se em algo parecido com charretes, mas mais longas, e, em geral, com uma capota de tecido preto. Alguns se recusam até mesmo a usar refletores nessas charretes, para evitar que, à noite, sejam abalroadas por um outro veículo, este a motor, cujo motorista não os enxergou de longe ou se deparou com elas (as charretes) numa curva. (Vide duas fotos na última sequência). Bicicletas (não motorizadas) também são admissíveis. Além disso, a maioria dos Amish não usa rádio, televisão, telefone (muito menos smartphones), computador ou a Internet. Eles também são avessos a toda e qualquer forma de consumo do que consideram supérfluo.

A questão aqui fica meio complicada porque, trabalhando na agricultura, é difícil, hoje em dia, não usar tratores e outros equipamentos, implementos, instrumentos e ferramentas que permitam a mecanização ou mesmo a automação de alguns processos. Sua agricultura é orgânica, o que torna os produtos por eles cultivados itens bastante valorizados e procurados por membros da sociedade em geral que se preocupam com sua saúde (ou que são meio chegados a algumas frescuras). A maior parte das comunidades Amish tem entrepostos, bastante movimentados, em que eles vendem seus produtos excedentes, que têm se tornado bastante populares. A marca “Amish” vende muito bem hoje em dia nos Estados Unidos. (Seus produtos são algo parecidos com os dos Adventistas no Brasil, como o mel, a geleia real, e as geleias  de frutas Superbom).

Amish Buggy - 01AMish Buggy - 02Amish Buggy - 05 - full of peopleAmish Buggy - 03 acidenteAmish Buggy - 04 - acidente

Diante disso, é pertinente perguntar até quando os Amish vão conseguir se manter relativamente separados da sociedade e refratários ao uso de tecnologia que cada vez mais se torna indispensável para sua atividade agrícola. Isso sem falar que, com a automatização agrícola, muitos Amish estão sendo obrigados a se tornarem empreendedores (a indústria de móveis é uma de suas favoritas) ou a trabalharem em fábricas ou escritórios de propriedade de não-Amish em que a tecnologia tem presença garantida.

Um livro publicado há mais de vinte anos discute essa questão com simpatia, realismo e competência. Trata-se The Amish Struggle with Modernity, editado por Donald B. Kraybill (talvez o maior scholar dedicado a estudar os Amish hoje em dia e seu historiador mais importante) e Marc A. Olshan (New England University Press, 1994). Comecei a ler o livro hoje, por volta do meio-dia, quando cheguei, tendo-o apanhado na Biblioteca do hotel. Gostei tanto do que li que encomendei o livro na Amazon para entrega no Brasil (porque para entrega aqui na casa de minha filha a questão do tempo de entrega já apresenta riscos, pois vamos sair da casa da Andrea neste Sábado à noite para ir para a Califórnia).

Quanto à origem dos Menonitas e Amish, eles surgiram (como já indicado) dentro do movimento chamado Anabatista, iniciado por volta de 1525 em Zurique, área do reformador Ulrico Zuínglio. Zuínglio, que era um pároco que se “protestantizou” — até certo ponto, segundo alguns historiadores, sob a influência de Lutero, embora Zuínglio tenha sempre insistido que seu “Protestantismo” era independente do de Lutero, do qual veio a discordar acirradamente em relação a muitas questões, em especial a da natureza da Eucaristia. Para alguns de seus admiradores em Zurique, Zuínglio era muito conservador e vagaroso na implantação das reformas e mesmo não muito coerente na interpretação do princípio do Sola Scriptura. A questão que se tornou o maior ponto de litígio foi a do batismo – em especial a questão do batismo infantil. Para esses admiradores de Zuínglio (que depois de se separarem dele foram perseguidos por ele e por todos os demais reformadores de primeira linha), o Novo Testamento em nenhum momento afirma que crianças devam ser batizadas nem se refere a batismo de crianças. Isso significava, para eles, que o batismo infantil era algo não-bíblico e que, portanto, deveria ser abolido na Reforma. De um ângulo mais positivo, eles viam o batismo como um ritual que deveria ser aplicado a quem, conscientemente, se arrependia de seus pecados, de seus erros (até mesmo na interpretação da Bíblia), pedia perdão e confessava Jesus Cristo como seu salvador. Uma criança pequena não poderia sequer entender isso, razão pela qual não poderia ser batizada. Além disso, o batismo bíblico era, segundo eles, por imersão – o que seria algo arriscado praticar no caso de crianças pequenas. Alguns desses seguidores de Zuínglio, batizados na Igreja Católica quando crianças, vieram a acreditar que deveriam ser rebatizados, pois o batismo que haviam tido enquanto crianças não tinha sentido. Por isso esse grupo veio a ser chamado de Anabatista (às vezes Katabatista), termos que podem ser traduzidos por “Rebatizadores” – embora nem todos eles defendessem o rebatismo de quem havia sido batizado apenas na infância.

O movimento Anabatista nasceu na Suíça, por volta de 1525, e logo se espalhou pelo Sudoeste da Alemanha chegando até às regiões do Leste Europeu, como a Morávia (hoje parte da República Tcheca). De início os membros do movimento se chamavam de Irmãos Suíços, ou Irmãos Moravianos. (Consta que John Wesley, o anglicano que fundou o Metodismo, no Século XVIII, teve uma reconversão ao ouvir uma pregação de um Irmão Moraviano, cujas palavras lhe aqueceram o coração).

Há vários historiadores que consideram Andreas Rudolph Bodenstein von Karlstadt, superior hierárquico de Lutero na Universidade de Wittenberg, mas que, a partir de 1522 foi repudiado e perseguido por Lutero, o pai do Movimento Anabatista. Vide Calvin Augustine Pater, Karlstadt As the Father of the Baptist Movements: The Emergence of Lay Protestantism (University of Toronto Press, Toronto, 1984). Considero bastante plausível essa sugestão e já escrevi alguns artigos defendendo esse ponto de vista. Também tiveram alguma conexão com os Anabatistas alguns elementos politicamente bem mais radicais do que eles, como Thomas Munzer, o líder da Rebelião dos Camponeses na Alemanha em 1524-1525, que foi assassinado em combate contra as forças armadas de Frederico III da Saxônia Eleitoral, dito o Sábio, protetor de Lutero e defensor da Reforma Luterana em seu território.

Por causa de sua oposição aos chamados Reformadores Magistrais (os reformadores que fizeram a Reforma Protestante em aliança com, e sob a proteção de, poderes seculares, ou magistrados), por causa de sua crítica a posições teológicas desses reformadores, e por causa de sua associação, ainda que, em alguns casos, bastante tênue, com elementos politicamente revolucionários, os Anabatistas acabaram sendo combatidos e perseguidos tanto por Católicos (que os consideravam Protestantes) como pelos Protestantes (que os consideravam teologicamente hereges e politicamente subversivos e revolucionários). Muitos Anabatistas morreram nessas perseguições. Em geral eram afogados — uma ironia perpetrada pelos perseguidores em função de sua defesa do batismo por imersão.

É possível dizer que, até certo ponto, os Anabatistas só sobreviveram por causa do aparecimento de Menno Simons (1496-1561), de onde vem o nome Menonita, que, por ser dos Países Baixos (Holanda, que na época incluía a Bélgica), viviam em um clima de maior tolerância religiosa. Foi do movimento Menonita que surgiram os Amish, sob a liderança da Jakob Amann, em 1693 (donde o nome Amish). Mas os Amish só conseguiram sobreviver, na verdade, quando, no início do Século 18, começaram a emigrar (junto com um bom grupo de Menonitas não-Amish) para a tolerante Pensilvânia, de herança Quaker (Quacre), nos Estados Unidos. Da Pensilvânia acabaram vindo para Ohio e para outros estados vizinhos, em especial Indiana.

Segundo o livro The Amish, de Donald B. Kraybill, Karen M. Johnson-Weiner, e Steven M. Nolt (Johns Hopkins University Press, Baltimore, 2013 – usado na edição Kindle), cerca de 50% dos Amish moram atualmente nesses três estados: Pensilvânia, Ohio e Indiana. O estado americano de Winsconsin e a província canadense de Ontario vêm em seguida. Ainda segundo os autores desse livro, os Amish existem hoje basicamente nos Estados Unidos e no Canadá: sua última congregação na Europa foi dissolvida em 1937 — e sua presença fora dos Estados Unidos e Canadá é insignificante.

Até hoje a língua que os Amish cultivam aqui nos Estados Unidos, além do Inglês, naturalmente, é uma corruptela de Holandês e Alemão — ficando mais para o Alemão do que para o Holandês, embora, curiosamente, a língua seja chamada aqui nos Estados Unidos de Pennsylvania Dutch (o termo “”Dutch” sendo tipicamente usado para fazer referência a pessoas, coisas e tradições oriundas da Holanda). Basicamente todos os Amish falam essa língua, além, naturalmente do Inglês.

Há certa confusão, no imaginário popular, e mesmo entre gente que deveria saber melhor, se os Amish têm origem suíça (suíça-alemã), holandesa ou simplesmente alemã. Na verdade, é preciso destacar quatro fatos que me parecem incontroversos:

    1. Primeiro, os Amish são, historicamente, descendentes dos Anabatistas que surgiram, como um movimento separado da reforma zuingliana em Zurique, por volta de 1525, e, portanto, na Suíça Alemã, através do trabalho principalmente de Conrad Grebel (1498-1526) e Felix Mantz (1498-1527) — nenhum dos quais viveu muito, sendo ambos assassinados (martirizados) em decorrência de sua fé e de sua prática religiosa;
    2. Segundo, mais proximamente, eles descendem dos Menonitas, movimento que surgiu na Holanda, através do trabalho de Menno Simons (1496-1561), já mencionado; 
    3. Terceiro, sua origem específica, enquanto Amish (e não simplesmente, Menonitas), se deve a Jakob Amann, também já mencionado, nome também grafado como Amman (nascido em 1644, com morte em data desconhecida, entre 1712 e 1730), mas que, sem que haja sobre isso dúvida razoável, em 1693 fundou o movimento que hoje carrega seu nome — sendo essa, 1693, a data da origem dos Amish, segundo a maioria dos historiadores;
    4. Quarto, a maioria dos Amish que inicialmente veio para os Estados Unidos, nos séculos XVIII e XIX, mais ou menos entre os anos 1730s e 1850s, era oriunda do Sudoeste da Alemanha, a região conhecida como o Eleitorado do Palatino, ou simplesmente o Palatinado (que fica próxima do Rio Reno, que curiosamente liga a Holanda à Suíça, perto da região da Alsácia-Lorena, que tanta vezes mudou de mão entre Alemães e Franceses), donde seu vínculo com a Alemanha e com a língua Alemã.

Esses quatro fatos explicam razoavelmente bem porque a origem dos Amish é relacionada com suíços-alemães, com holandeses e com alemães, propriamente ditos.

Enfim, é isso, por enquanto. Vou falar mais dos Amish e dos Menonitas, por três razões muito pessoais:

    1. Primeiro, porque tenho enorme simpatia pela causa deles e pela perseguição desumana que eles sofreram nas mãos de Católicos e dos Protestantes envolvidos com a chamada Reforma Magisterial (Luteranos, Zuinglianos e Calvinistas) – em especial destes, os Protestantes;
    2. Segundo, porque sou profundo admirador de Erasmo de Roterdã (1466-1536), nascido em Roterdã, na Holanda, e falecido em Basiléia, na Suíça, cidades irmãs, que são unificadas pelo Rio Reno, que era um humanista cuja fé e a prática religiosa, embora ele fosse católico e nunca tenha se tornado protestante, tinha mais em comum com a dos Anabatistas, e, posteriormente, dos Menonitas e Amish, reduzidos a proporções razoáveis e racionais o radicalismo e o excessivo fervor religioso desses;
    3. Terceiro, porque também me tornei admirador de Karlstadt, em especial em decorrência de sua perseguição implacável nas mãos do intolerante Lutero. Karlstadt, por coincidência, foi ajudado por Anabatistas e terminou seus dias, como Erasmo, em Basileia.

Além dessas razões, conheci vários Menonitas quando estudava em Campinas, em especial Sarah Yoder e o casal canadense Kenneth (Ken) e Grace Schwarzentruber (estes os fundadores, em Campinas, da Livraria Cristã Unida, que eu adorava visitar quando era seminarista). Esses dois sobrenomes são bastante comuns aqui na região em que me encontro. Hoje vi vários nomes em placas que tinha esses sobrenomes. Ken morreu há pouco tempo, em 17/11/2016, com quase 90 anos (ele nasceu em 30/4/1928), como relata um artigo na Web. Ken e Grace viveram no Brasil de 1961 a 1993, quando se aposentaram. (Grace morreu antes de Ken, em 2005), podendo ser considerados brasileiros honorários. (Vide http://www.canadianmennonite.org/stories/mennonite-missionary-served-hands-attitude). Naqueles idos anos de 1964-1966 eu nunca imaginei que um dia estivesse prestando tributo a eles (e, também, a Sarah Yoder, amiga dos seminaristas).

Quanto aos Amish, tenho enorme simpatia por eles, tanto pela sua coerência como pela sua coragem de resistir à modernidade. A maioria dos demais cristãos resiste a um ou outro aspecto da modernidade, mas chafurda em outros. Os Amish tentam ser coerentes. Não é fácil, nem sei por quanto tempo conseguirão resistir, andando por aí em seus buggies, puxados a cavalos… Mas vou admira-los, enquanto tentarem — e mesmo, se e quando cederem, por um dia terem tentado “so hard“…

Em Sugarcreek, OH, 31 de Janeiro de 2018.

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