Dia 37 – 20180126: Uma Visita ao Passado em Pittsburgh

No final do ano passado (2018) escrevi um artigo para O Estandarte, jornal oficial da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), publicado mensalmente. O artigo, que  sairá no número de Fevereiro, que já começa a ser distribuído, celebra o Instituto José Manuel da Conceição (JMC, Jota), de Jandira, em que fiz o Curso Clássico (uma das variantes do Ensino Médio de então), de 1961 a 1963. Não tivesse essa instituição sido assassinada pela Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), que respondia por ela, no triste ano de 1970, em plena vigência da Ditadura Militar, no auge dos chamados “Anos de Chumbo”, ela estaria celebrando em 8 de Fevereiro de 2018 seus 90 anos. Nós, os manuelinos, vamos celebrar os 90 anos de sua fundação, mesmo estando o seu corpo já morto e enterrado.

No artigo eu jogo com o fato de que as instituições, como as pessoas, têm um corpo e uma alma. No caso do JMC, o que foi assassinado foi apenas o seu corpo – a alma continua bem viva até hoje, como testemunham os encontros anuais dos ex-alunos e ex-professores, quase 50 anos depois de seu fechamento. Nos Evangelhos Jesus diz que não devemos temer os que podem matar o corpo mas não conseguem matar a alma. Mas há assassinos de alma, também, disso não tenho dúvida.

Hoje visitei com a Paloma, minha mulher, a instituição em que estudei durante três anos, de 1967 a 1970, e em cujas dependências morei durante cinco anos, de 1967 a 1972: o Pittsburgh Theological Seminary (PTS), aqui em Pittsburgh, PA, onde iremos passar a noite hoje. Depois de ali terminar o Mestrado em Maio de 1970, e de ganhar uma bolsa da própria instituição para fazer o Doutorado na University of Pittsburgh (Pitt), fui especialmente agraciado pela direção do Seminário que foi extremamente gentil ao me permitir que continuasse morando no mesmo apartamento, sem pagar aluguel, e a trabalhar, à noite, na Biblioteca da instituição.

Assim, vivi nas dependências do Seminário durante cinco anos inteiros. Foi uma época de grande crescimento intelectual e de muita experiência de vida. Ali era, literalmente, a minha casa.

Hoje, no ano em que, no mês de Maio, celebrarei 48 anos da conclusão do meu Mestrado, eu revi os prédios e os jardins que conheci tão bem, até porque, em todas as férias de Junho a Agosto, eu trabalhava neles, fazendo faxina nos prédios, catando papeis e tocos de cigarro da grama dos lindos jardins… Depois, quando já fazia o Doutorado, fui “promovido”, passando a cortar a grama do Seminário com um tratorzinho ou a dirigir a caminhonete do Seminário para tudo quando era canto…

Hoje, a Paloma e eu almoçamos no refeitório, a mesma comida sem maiores atrativos de sempre: havia pizza, sanduíche de presunto e queijo, hambúrguer, batata frita e salada… A Biblioteca está sendo reformada, e, por isso, o setor de livros que os professores colocam em reserva para os alunos estava funcionando num canto do refeitório (cafeteria). Comemos numa salinha especial que antigamente era usada como refeitório dos professores, quando eles queriam ter alguma privacidade para conversar ou realizar reuniões durante o almoço. Por 10,75 dólares comemos um sanduíche cada um, a Paloma um misto, eu um hambúrguer, ambos com fritas (muito gostosas por sinal), e compartilhamos uma Coca Zero de 600 ml, que, felizmente, começa a pegar por aqui…

Mas, para mim, que quase 48 anos depois, não conhecia mais ninguém ali, o contato foi travado apenas com “o corpo da instituição”: “a sua alma”, que eu conhecia tão bem, não estava mais ali. Não ousaria dizer que a alma havia morrido, porque seria presunção demais. Mas a alma era outra, como se tivesse havido uma transmigração de almas: a alma que eu conheci possivelmente foi embora para habitar alguma outra instituição, e uma alma nova se implantou no Seminário, com a qual não tenho nenhuma identificação.

Assim, apesar de eu ter ficado contente de rever o local e de poder apresenta-lo à Paloma, que não o conhecia, eu me senti meio frustrado com a visita. Não que eu esperasse ainda encontrar ali colegas e mestres que foram meus contemporâneos na instituição, como Donald K. McKim, hoje autor renomado de um grande conjunto de livros sobre a fé reformada, que terminou o Doutorado dele dois anos depois de mim, ou Waldir Berndt, meu colega e mentor no Seminário de Campinas e, posteriormente, também em Pittsburgh, que hoje mora com sua mulher Ondina em Florianópolis, que são os dois únicos colegas daquela época com os quais eu ainda tenho algum contato atualmente. Vários colegas meus daquela época já morreram, como Archibald Woodruff, James Long, e Elias Abrahão. Dos meus professores de então só tenho certeza de que está vivo Ronald H. Stone, meu professor de Ética e Doutrina Social da Igreja, com quem tenho mantido contato pelo LinkedIn. Meus dois mestres mais queridos, Ford Lewis Battles, de História da Igreja (e tradutor das Institutas de Calvino para o Inglês), e Dietrich Ritschl, de História do Pensamento Cristão, infelizmente, já faleceram – o Ritschl há apenas cerca de duas semanas, no dia 11 de Janeiro deste ano, como fiquei sabendo hoje. Ritschl havia nascido em 1929: morreu, portanto, com 89 anos. Quanto a Markus Barth, professor de Novo Testamento, e especialmente querido por ser filho de Karl Barth e por ter conseguido doar ao Seminário a escrivaninha do pai, descobri que morreu em 1994, há quase um quarto de século, portanto… Com Gordon Eugene Jackson, que era professor de Teologia Pastoral, e que foi quem me levou para Pittsburgh, e com George H. Kehm, de quem fui assistente durante os meus dois últimos anos em Pittsburgh, perdi totalmente o contato. Não consegui sequer determinar, pesquisando na Web, se estão vivos ou mortos. No Seminário não havia ninguém a quem eu pudesse perguntar. Hans Eberhard von Waldow, meu divertido professor de Velho Testamento e História de Israel, que havia sido professor na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, em São Leopoldo, RS, no Brasil, onde  também estudei, e que veio para Pittsburgh um ano antes de mim, faleceu em 2007,  aos 83 anos, segundo descobri na Web.

É isso. Depois de ficar algumas horas no Seminário, saímos, passeamos pelo Highland Park, que fica próximo, e viemos para o centro da cidade, onde nos hospedamos no Distrikt Hotel (sic), que se descreve como um hotel boutique, que fica no Boulevard of the Allies. Deixamos nossas coisas no quarto e fomos bater perna no centro, indo ver a praça que fica no vértice do triângulo em que os rios Allegheny e Monagahela se encontram para formar o rio Ohio. Ali, do lado Sul, estão os novos estádios dos Steelers (futebol americano) e dos Pirates (baseball). O estádio chamado Three Rivers Stadium, que foi construído enquanto eu morava na cidade, desapareceu.

Amanhã, sábado, dia 27/1/2018, dia em que minha irmã caçula faz 59 anos (!) aí em São Paulo (Santo André, na verdade), vamos tentar visitar o Museu Ativo de Ciência de Pittsburgh e, quem sabe, o Planetário, antes de voltar para Cortland, onde temos uma apresentação de dança das netas. Se ainda sobrar tempo, vamos visitar a Cathedral of Learning, o prédio principal da University of Pittsburgh, onde fiz meu Doutorado de 1970 a 1972. Ontem só passamos ao lado dela.

Valeu a viagem, por enquanto, pelas memórias que evocou e por permitir que a Paloma tenha uma ideia mais concreta das coisas que eu falo quando faço algum comentário sobre minha encarnação em Pittsburgh…

Em Pittsburgh, 26 de Janeiro de 2018

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