Dia 26 – 20180115: Retorno Conturbado de Calgary

Saí às 4h15 da manhã da casa do meu primo Anello em Calgary. Meu voo, pela Air Canada, iria de Calgary para Toronto, com saída prevista para 6h. A ida de casa para o aeroporto foi tranquila, permitindo-nos chegar ao aeroporto às 4h45. Fiz check-in sem problemas, mas a companheira atendente me avisou que seria difícil fazer a conexão para Cleveland em Toronto (eu tinha 90 minutos para fazer isso, segundo a reserva), porque o voo estaria atrasado pelo menos 30 minutos, deixando-me apenas uma hora para fazer a conexão – o que era pouco, em Toronto, disse-me ela. Entendi. Os voos de Toronto para Cleveland são considerados regionais, sendo feitos em aviões pequenos – que geralmente saem do canto mais distante possível do aeroporto que, em Toronto, é a chamada Ala F, que tem nada menos do que 97 portões de embarque. Disse a ela que arriscaria, de qualquer forma.

Ainda bem que tinha tempo para a burocracia em Calgary. Ao passar na Segurança, fui agraciado com um “bodily check” (um exame corporal, daqueles que policiais fazem em criminosos, apalpando até as “partes” deles). Um rapaz (não devia ter mais de 18 anos) perguntou-me se eu concordava fazer o exame ali mesmo ou se preferia uma sala fechada. Gato escaldado e experiente, achei mais seguro fazer o tal exame ali mesmo, à vista de todos, ainda que tivesse de ficar pelado.

Começou com as mãos (minhas e deles – só que a deles, enluvadas). Passou um detector eletrônico por cada um dos meus dez dedos. Pediu para eu tirar tudo dos meus bolsos. Perguntei: “Até dinheiro?” e ele respondeu: “Eu disse tudo”. Tirei dinheiro, bala, palito de dente, lenço sujo (no Inverno limpo muito o nariz), cartão da United, o escambau. Ele passou o dito detector por cada uma dessas coisas. Abriu o lenço. Eu disse a ele: “Este é um lenço usado”. Ele falou: “Tudo bem”.

Em seguida me passou para uma colega dele dizendo que o detector maior (a “máquina xerox de malas” havia detectado um produto químico desconhecido. A moça pediu para eu identificar todos os meus pertences: mochila, computador, tablet, cinto, sapato, casaco, etc. Foi tirando tudo de dentro de mochila. Passou o detector. Quando o passou em cima da minha caixinha de remédios, houve um apito. Ela me perguntou o que era aquilo e eu respondi que eram remédios que eu tomava todos os dias, por ter tido um infarto em 2002. Ela pegou um pedaço de papel e me perguntou se eu sabia quais eram as substâncias ativas. Eu disse que, de cabeça, e em Inglês, não. Mas que poderia tentar responder dando os nomes das ditas substâncias se tivesse acesso ao meu computador. Ela disse que eu não podia ter. Disse que então não saberia informar. Ela tirou tudo de dentro da mochila. Não ficou nada lá dentro. Depois passou o detector no tablet, abriu a capinha, mandou eu ligar. Em seguida passou no cinto, no sapato, no casaco, e chamou o rapaz de volta. Ele me pediu para ficar em posição de crucificação, passou a mão nas pernas, no vão entre elas, pulou aquela parte mas apalpou logo em cima, levantou minha camiseta, enfiou a mão por dentro da calça no rumo da cinta, apalpou a parte de cima, inclusive os sovacos, passou a mão atrás das orelhas… E disse a ela: “Nothing”. Daí ela disse que podia por todas as minhas coisas no lugar certo e ir para a área de Imigração. Até botar o cinto, calçar e amarrar os sapatos, guardar tudo no lugar, conferir, vestir o casaco, etc. passei mais ou menos meia-hora de indignidade ali. E estava no Canadá, indo para outra cidade canadense – só depois iria para os Estados Unidos.

O avião teve de ser descongelado e saímos com 30 minutos de atraso – e chegamos a Toronto ao meio-dia, com a mesma meia hora de atraso. Até conseguir sair do avião (estava numa fileira do meio para trás, a 21) foram 15 minutos. Pedi auxílio à Air Canada porque tinha só 45 minutos para andar cerca de 2 km e passar por vários órgãos de fiscalização, e me disseram que não podiam. Fui andando. Passei por várias fiscalizações e cheguei numa em que havia uma fila de umas dez pessoas. Já eram 12h35. Fiquei na fila.  Quando chegou a minha vez, eram 12h45, e eu dei um passo para ser atendido quando a funcionária fez um sinal com a mão para eu parar, junto as coisas delas, e saiu. Ficou só mais um funcionário, com cara de mexicano, que estava engajado num papo aberto, com risadas e tudo com o cara que estava atendendo. Depois de uns 5 minutos – já eram 12h50, ele me atendeu. Não conseguiu achar meu nome no computador. Esses imbecis que elaboram documentos no Brasil colocaram meu nome da seguinte forma no passaporte:

Primeiro nome: Eduardo Oscar

Último nome: Epprecht Machado Campos Chaves

Ele estava procurando por Epprecht. Eu disse a ele que meu último nome era Chaves, e que o restante era nome do meio, uma categoria que Itamaraty resolveu ignorar. Ele me perguntou por que tanto nome. Eu expliquei que os dois primeiros eram sobrenomes de minha mulher (da mãe e do pai dela) e o terceiro era o sobrenome de solteira da minha mãe. Ele me perguntou se no preciso era preciso carregar todos esses nomes. Disse a ele que preciso não era, mas que era facultativo. Ele me fez uma pergunta que eu ouvi pela segunda vez: “Mas por que você escolheu?” Eu, pacientemente, disse que, se minha mulher adota meus sobrenomes, nada mais justo que eu adote os delas. Meio receoso, perguntei se eu ia perder meu voo por causa do meu nome. Ele disse que meu voo não era preocupação dele. Outro problema: meu visto americano, válido, está num passaporte brasileiro inválido, e o válido não visto. Passava um, passava outro, passava o visto e o sistema dele aparentemente rejeitava. Eu disse a ele: “No dia 27 de Dezembro eu entrei no país e não houve nenhum problema com meus passaportes e o visto”. Ele passou meu passaporte velho tantas vezes pelo scanner dele que a página do visto ficou toda amassada. Finalmente disse: “vou cooperar para você não perder seu voo” – e digitou meu nome inteiro (49 caracteres) catando milho. Daí a máquina aceitou. Mandou eu colocar meus quatro dedos da mão direita num tirador de impressões digitais e disse: “Vou dispensar você de tirar as digitais da mão esquerda para cooperar”. Mandou-me tirar os óculos, fotografou-me, e mandou-me seguir. Cheguei a um posto de Apoio ao Usuário da Air Canada, meio correndo, esbaforido, às 12h58 e pedi: “Falem com o portão F-91 para segurar o voo 7405 [Paloma? Olhe o número] que eu estou chegando lá”. A moça disse que o portão já estava fechado. Retruquei que não eram 13h ainda, mas ela disse: “Está fechado. Sua reserva já foi mudada para um voo amanhã cedo”. Quase tive um ataque. Disse a ela há um voo às 16h hoje. Ela disse: “Está lotado”. Disse há outro às 18h. Ela disse: “Foi cancelado”. Eu olhei o quadro de voos e disse: “E Pittsburgh? Eu vou para Pittsburgh, se você conseguir despachar minha mala para lá…” Ela checou e disse “OK”. Liguei para a Paloma e consultei sobre a possibilidade de a Andrea e ela me pegarem em Pittsburgh – um pouco mais longe do que Cleveland, mas do outro lado de Cortland. Tudo estando ok, fechamos negócio. O voo sai às 18h30, por aí e chega a Pittsburgh cerca de uma hora depois. Ao todo, tudo dando certo daqui para frente, terei ficado viajando das 4h15 às 21h, contando os trajetos de carro. É a vida.

NOTA de 16/1/2018:

Infelizmente os problemas do dia estavam longe de chegar ao fim. Meu retorno para casa só terminou às 3h30 da manhã de hoje, 16/1/2018. Resolvi escrever outro artigo para descrever-los. Ele foi publicado na sequência deste, com o título “Retorno para Casa Só Terminou Hoje de Madrugada”, no seguinte endereço:

tripus20172018.wordpress.com/2018/01/16/dia-27-20180116-retorno-para-casa-so-terminou-hoje-de-madrugada/

Em Toronto, Lounge da Air Canada, 15 de Janeiro de 2018. Vou postar sem revisar porque não estou com paciência para fazer isso…

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