Dias 23-25 – 20180112-20180114: Parte C – Anello e Scott

Estive em Calgary, na Província de Alberta, no Canadá, de 11 a 15 deste mês, na casa de meu primo Anello Sanvido (primeiro filho de minha tia Alice, irmã mais velha de minha mãe, Edith, da qual eu também fui o primeiro filho). Apesar de a mãe dele ter sido mais velha do que a minha, eu nasci primeiro, porque minha mãe se casou primeiro. Sou exatamente três anos e dez meses mais velho do que ele. Um dia isso representou muito. Hoje não significa nada (cerca de 5% de nossa idade). Fui, assim, o primeiro sobrinho de minha tia, a quem eu chamava de Cacaco. Em várias ocasiões morei na casa de minha Tia Alice por alguns períodos de tempo. Ela era minha tia mais chegada e querida. E o Anello sempre foi meu primo mais chegado e querido. Somos parecidos em muitas coisas: jeitos de ser, manias, temperamento. Dos nove filhos de minha mãe e minha tia, só há uma que não se casou. Dos oito restantes, ninguém se divorciou, exceto ele e eu – duas vezes. Somos os únicos casados três vezes na família. Há uma pequena diferença: os dois filhos dele, casados, nunca se separaram; as duas filhas minhas já se divorciaram e estão em namoros sérios que parecem indicar que um segundo casamento está à vista. A mãe de minha filha mais velha diz que ela herdou meu gene divorciador…

Em 2001 o Anello se mudou para o Canadá, onde reside até hoje. Que eu me lembre, já morou em Montreal, Quebec City, Edmonton e, agora, em Calgary. Conseguiu que seus dois filhos fossem para o Canadá também, embora um tenha ido morar nos Estados Unidos. Ambos, tenho certeza, saberão lhe ser gratos pela porta que ele lhes abriu, criando-lhes oportunidade de trabalho e modos de vida que eles dificilmente alcançariam no Brasil.

Como fazia tempo que eu não o via, como ambos estamos na casa dos setenta, e como eu tinha uma raspa de milhagem na minha conta da United que me permitiria viajar sem gastar quase nada, resolvi dar um pulo até sua casa, a fim de que pudéssemos desfrutar ainda uma vez da companhia um do outro antes de a tela de “Game Over” aparecer para um de nós (ou para os dois).

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O Anello está separado nos últimos tempos. A única companhia fiel e constante do Anello nesses últimos meses tem sido seu fiel escudeiro, Scott, um Terrier Escocês preto, com barbas e sobrancelhas de fazer inveja. Scott tem dois anos e meio, é baixinho, pesa cerca de 10 kg, e tem uma boca e uns dentes (em especial uns caninos) totalmente desproporcionais para o tamanho do resto de seu corpo. Cheguei a ficar com medo quando o Anello me mostrou a boca dele, por detrás da vasta barba. Para do tamanho da boca do Pipeau (nosso cachorro principal no sítio em Salto), que pesa cerca de seis vezes o que o Scott pesa. Diferentemente do Pipeau, que é meio elétrico, o Scott é um cachorro especialmente quieto e disciplinado. Come duas vezes por dia, de manhã e de noitinha, exceto por um agrado aqui e ali, o Anello sai com ele duas vezes, depois de ele comer, faz cocô religiosamente uma vez por dia, de manhã, e, de resto, é um cachorro que os de fala inglesa chamam de “unobtrusive”: não perturba, não interfere na vida dos circunstantes a menos que convocado, e é capaz de ficar quietinho, aos pés do Anello, dentro do avião, sem latir, sem fazer xixi e cocô, e sem morder a poltrona ou alguma outra coisa (muito menos os outros viajantes) por horas a fio. Se você não olhar para aquela mancha negra aos pés do Anello no avião, nem sente, por vias auditivas, olfativas e táteis, que há um cachorro ali.

Tão bom comportamento, aprendido sem personal trainer, só posso considerar o resultado de dois fatores: um, a natureza do cachorro; outro, a gratidão pelo tratamento realesco e mais do que exemplar que ele recebe de seu dono (que prefere se ver como seu pai adotivo). Da natureza do cachorro não vou tentar falar porque não sou especialista na área. O Élcio, meu outro primo, e, dos homens, o irmão mais novo do Anello, que é veterinário (e cuida dos cachorros de gente célebre em Londrina), poderia dizer. Uma hora ainda pergunto a ele. Mas do tratamento que o Anello dispensa ao Scott eu não posso deixar de fazer referência.

O Anello e o Scott tem sido, de certo modo, inseparáveis – pelo menos nos últimos tempos.

Fora de casa, o Anello o leva consigo a todo lugar em que cachorros são admitidos. Como já disse, ele viajou com o Anello até o Brasil, ne cabine do avião. Quando a gente saiu para ir almoço, ele invariavelmente foi junto – cachorros são admitidos em vários restaurantes no Canada (classificados como “dog friendly restaurants”). Almoçamos em dois restaurantes bastante chiques nesses dois dias. Um, o Vin Room, em Calgary; o outro, o do Château de Lac Louise. Ambos não colocaram nenhuma objeção à presença “unobtrusive” do imperturbável Scott ao pé da mesa. O primeiro desses até lhe trouxe um saquinho com uma série de guloseimas caninas para distraí-lo. Comportou-se exemplarmente.

No carro do Anello (um maravilhoso Nissan Titan V8 Reserve, topo de linha, branco, retirado da loja logo depois de minha chegada, no dia mesmo em que aportei a Calgary, e que, portanto, teve o seu banco do passageiro inaugurado pela minha pouco ilustre bunda – um privilégio até então inédito para os meus glúteos), o Scott tem uma caminha confortabilíssima, fofa, macia e elegante, com cinto de segurança, pratinho para pequenos agrados comestíveis para que ele suporte bem a viagem, e com uma vista desimpedida da paisagem através da janela do banco de trás, no rumo do motorista – lugar reservado dele. Raramente dorme: não querendo perder nada da viagem, fica quase o tempo todo alerta, observando o que se passa fora, levantando as orelhas quando percebe um outro cachorro em um veículo que passe.

Para sair, a pé ou de carro, o Scott veste uma roupa especial, que tem conectores para cordinhas de condução, que, assim, não ficam presas em sua coleira, não sufocando seu real pescoço. Essa vestimenta tem bolsinhos em que cartões com sua identidade (nome, raça, idade, sinais especiais), a identidade e o telefone do Anello, cartão de vacina, certificado de inspeção e atestado de saúde para fins de viagem, etc., bem como um documento da Associação de Proprietários de Cães de Serviço (ou algo assim) que informa que o Scott é um cão de companhia e apoio, tanto emocional como de qualquer outro tipo, ao Anello, que, como eu, é tecnicamente idoso, e, portanto, com toda justiça merecedor desse apoio (e de qualquer outro que uma sociedade evoluída possa se dignar a dar aos seus respeitáveis anciãos).

Em casa, o Scott também é o cachorro mais bem tratado que eu jamais vi. Tem caminhas ou tapetes macios, confortáveis e bonitos em vários pontos estratégicos da casa. Uma fica na porta da entrada social da casa. Em casas do Canadá e dos EUA essa porta é raramente usada (exceto por visitas), porque o pessoal da casa entra pela porta da garagem que dá acesso à área de serviço da casa). A porta em questão tem, embaixo, numa altura compatível com o tamanho do Scott, uma janelinha de vidro que lhe permite verificar o que está a acontecer lá fora, em especial quem está chegando. Se alguém botar o pé na calçadinha que dá acesso à porta de entrada social, ele dá o alerta, com um latido bastante audível e até ameaçador. Mas outros locais da residência também têm suas caminhas ou seus tapetes. Se o Anello está na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha, no quarto, no studio fotográfico, no laboratório digital de tratamento de imagens, ou na sala de ginástica, o Scott também está lá, junto do dono e amigo, e há locais adequados em que ele pode se acomodar. Se o Anello vai de um lado para outro, o Scott o acompanha, discretamente. Mas se o Scott percebe, pela audição ou pelo faro, que alguém está chegando ou que alguma coisa não está certa, na casa ou em suas cercanias frontais, ele corre para sua janelinha da porta de entrada, latindo.

O Anello prepara a comida dele, Scott, com todo esmero e cuidado. Cozinha arroz, vegetais, mistura temperos, acrescenta baby food para dar um gosto bom, com a preocupação de quem está preparando a comida de um filho – que é o papel que ele tem na vida em grande parte reclusa do Anello hoje. À noite o Anello escova seus dentes, lava suas patinhas e suas barbas, e penteia as barbas e sobrancelhas. Se está frio, coloca-lhe uma roupinha que lhe serve de pijama, e ele está pronto para dormir ao lado da cama da do Anello. Dorme quietinho, mas se algum barulho acontece na casa, ele late. Só sai do quarto quando o Anello se levanta e também sai. É companhia fiel e dedicada, em tempo integral.

O entendimento que o Scott tem da linguagem humana notável: ele entende perfeitamente ordens, chamados, as coisas que o Anello lhe diz, inclusive in baby talk, reagindo de acordo.

Para a hipótese de o Anello se atrasar na volta do serviço, ou sofrer um acidente e ser levado para um hospital, ele lhe deixa doses especiais de comida e água que possam durar até três dias. Os vizinhos são informados pelo Anello de que, se não o virem entrando e saindo da casa por um ou dois dias, devem procurar entrar com ele pelo seu telefone (cujo número é naturalmente fornecido) e, não havendo resposta, informar a Polícia e/ou o Corpo de Bombeiros para que socorram o Scott. Quando o Anello viaja, como quando de sua vinda ao Brasil, e leva o Scott, ele invariavelmente avisa os vizinhos. Ele vive numa comunidade residencial térrea em que quase todo mundo se conhece bem.

Anello e Scott in Lake Louise - 2

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Anello e Scott Lake Louise - 1

Ainda bem que cachorros não conseguem ler nem se comunicar à distância por telefone ou pela Internet, porque, caso contrário, eu ficaria seriamente preocupado que o Pipeau viesse a conversar e trocar ideias com o Scott, descobrindo que o nosso tratamento dele e o relacionamento que temos com ele deixa muito a desejar em comparação, dando início a movimentos reivindicatórios que iriam incendiar a política canina no sítio, onde temos, entre nós e os caseiros, bem mais de uma dúzia de cachorros… Isso iria nos perturbar mais do que o maldito PT.

No ar, entre Calgary e Toronto, em 15 de Janeiro de 2018

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