Dia 19 – 20180108: Mijões, Biquinis, Spagueti e Peperoni

Ontem foi um dia mais ativo do que os anteriores. A temperatura ficou mais aceitável – em vez de -21C graus (-28C a temperatura sentida), ficamos numa temperatura quase tropical: 1C. Saímos por volta de 10h para o Shopping (mais uma vez!), voltando de lá umas três horas depois. Lá almoçamos. À noite fomos jantar fora, na casa da mãe da Andrea.

Mas vamos aos poucos.

No Shopping, na Target, uma loja que concorre com o Walmart, finalmente comprei os “mijões” que, daqui para a frente, vão me aquecer da cintura para baixo… Ontem, porque estava mais quente, e só iríamos ficar fora ao sair de casa para o carro e vice-versa, dispensei-me de usar um deles à noite. Foi absolutamente tranquilo. Fui à seção de “Undergarments” Masculinos, vi uma quantidade enorme de camisetas e cuecas, mas nada comprido. Precisei perguntar para a senhora responsável pela área – no Target, tenho a impressão, os atendentes, em sua grande maioria, são idosos – onde eles estariam, e ela me levou a uma pequena seção em meio a camisas, calças, etc. Fiquei tentando entender a lógica da coisa e não consegui. Resolvi não desafiar a senhora (não muito simpática – nem um só sorrisinho) com uma discussão de critérios de classificação de roupas para fins de sua disposição nas prateleiras e nas araras. Perguntei a ela, isto sim, se seria possível experimentar as roupas. Fiz isso porque um amigo meu me advertiu que algumas lojas não admitem que você experimente “roupas de baixo” (a melhor tradução para “undergarments” que eu conheço). Ela me respondeu que sim. Quando fui ao Provador (Fitting Room) vi que havia placa, em cada cubículo, dizendo que, quando o usuário estivesse experimentando roupas de baixo, ele deveria fazê-lo sem tirar as suas próprias roupas de baixo… Faz certo sentido do ponto de vista da loja, mas, se você estiver experimentando uma sunga ou um biquini, fica meio incômodo. Com o “mijão” deu para cumprir a exigência da loja sem problemas. Custaram barato (comprei dois), por US$ 9.99 cada um.

Eis uma foto de um deles aberto e das caixinhas em que vêm:

 IMG_3777 IMG_3773

 Ao escrever a palavra “biquini”, atrás, o Word refugou a minha ortografia. “Biquini” é uma palavra paroxítona.

Tentei “biquine”, “bequini” e “bequine” e a palavra foi igualmente refugada em todos esses casos. Tentei “bikini”, idem. Perguntei para a Paloma, que verificou, acho que no próprio dicionário do Word, e me disse que a grafia oficial é “biquíni”. Coloquei a palavra assim, para verificar, e ela foi aceita. Mas eu me recuso a acentuar a palavra. Voltei ao texto anterior e a escrevi do jeito que havia escrito inicialmente: “biquini”.

A regra idiota que leva o Word a só aceitar “biquíni” é a seguinte:

As palavras paroxítonas não são acentuadas, exceto quando terminadas da forma indicada na coluna da esquerda:

l

fácil

n

pólen

r

cadáver

ps

bíceps

x

tórax

us

vírus

i, is

júri, lápis

om, ons

iândom, íons

um, uns

álbum, álbuns

ã(s), ão(s)

órfã, órfãs, órfão, órfãos

ditongo oral (seguido ou não de s)

jóquei, túneis

Tabela retirada de http://www.soportugues.com.br/secoes/fono/fono9.php.

OK: o fundamento do Word está na sétima linha da tabela – e o paralelo é com “júri”, que é acentuado. Pergunto: Por quê? Dificilmente um brasileiro pronunciaria a palavra como se estivesse grafada “jurí”, com acento agudo na última sílaba.

No caso de “biquini”, mesmo que cavadão, não faz o menor sentido colocar acento agudo no segundo dos três “i” da palavra (também não vou escrever “i’s” nem “is”, que parece Inglês). As palavras em Português são, por default, paroxítonas, e palavras paroxítonas não devem ser acentuadas — exceto em casos previstos nas gramática (como, por exemplo, quando terminadas com “r”, como “revólver”, com “x”, como “tórax”, e, quando terminadas com “i” (seguido ou não de “s”) , como “júri”, “lápis”, “cútis”, etc.

Em alguns casos a regra que define a exceção faz sentido. Sem acento, a maior parte das pessoas desavisadas poderia pronunciaria “tórax” como se a palavra estivesse grafada “toráx”. O “x”final (precedido, naturalmente, de vogal) puxa a tonicidade da palavrar. (Há gente afetada que pronuncia “durex” como se a palavra tivesse um acento agudo no “u”, ficando “dúrex”). De igual forma, uma parte (duvido que a maior) das pessoas desavisadas poderia pronunciar “revólver” como se a palavra estivesse grafada “revolvêr”. O “r” final, antecedido, naturalmente, de vogal, também puxa a tonicidade da palavra – embora seja mais difícil imaginar alguém lendo a palavra com se fosse oxítona na frase “o bandido atirou no policial com seu revolver”. No caso de “biquini” não há nenhuma chance de alguém pronunciar a palavra como se ela estivesse grafada “bíquini” ou “biquiní”. Faço minha resistência não violenta e pacífica a normas linguísticas idiotas: recuso-me a acentuar a palavra com acento agudo no “i” da segunda sílaba. Igualmente em relação a “juri”, “lapis”, “cutis”, “penis”, etc.

Fim do desabafo. Voltemos aos “mijões”. Boto o termo entre aspas porque a palavra evoca algo que não deveria evocar…

Acredito que só vá (o acento em “vá” também é totalmente desnecessário) usar os ditos cujos no fim de semana quando vou precisar ir (e vou sozinho) até (mais ou menos) o Noroeste do Canadá em função de uma questão pessoal que não estava em nosso planejamento. Lá, em geral, faz bem mais frio do que aqui, embora isso não tenha acontecido nesses últimos dias.

À noite fomos jantar, pela terceira vez, na casa da mãe da Andrea, que cozinhou (e ensinou a Paloma a fazer) um magnífico spagueti com brócoli e peperoni, com queijo parmesão por cima e em volta… Havia também “meat loaf”, para quem não gostasse do macarrão, mas eu só comi o spagueti.

A propósito, quatro palavras no título deste arquivo estão, segundo o Word, grafadas errado. Além de biquini, spagueti, brócoli e peperoni. Word quer que eu escreva biquíni,  espaguete, brócolis e, para a última, diz que a grafia está errada mas não oferece sugestão acerca do que seria a grafia correta. Uso essas palavras do jeito que me parece melhor.

A propósito, e para terminar, lanço um movimento nacional para a remoção de algumas frescuras da norma culta brasileira. Dou alguns exemplos:

Até o fim de minha vida vou falar “duzentAs e cinquenta gramas de mortadela”. Especialmente no caso de mortadela, é um acinte a bom senso falar “duzentOs e cinquenta gramas”. (Quem fala “duzentOs gramas” deveria falar também “duzentOs e cinquentOS gramas”…). {Esqueçam…].

Em ocasiões especiais, vou continuar a beber “umA champanhe”. “Um champanhe” é frescura dos exageradamente chegados à língua gálica.

Vou sempre dizer “isto não tem nada que ver com aquilo”, em vez de usar o horrível “nada a haver com” ou, pior, o galicismo “nada a ver com”.

Oportunamente voltarei ao assunto da nossa língua portuguesa que é minha principal ferramenta de trabalho, como também era (mal comparando) do Ariano Suassuna, que também protestava contra seus maus usos.

Em Cortland, 9 de Janeiro de 2018 (ainda de madrugada, porque no Inverno o amanhecer é tardio).

 

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