Ansiedade

O Edu é realmente uma figura curiosa. Sem falsa modéstia, já que estou falando do meu marido, como todas as mentes brilhantes, com inteligência acima da média, ele é um cara cheio de manias e excentricidades.

Já relatei em outras oportunidades a respeito da bagunça generalizada que ele faz nos espaços que considera seu território, como a biblioteca do sítio. Ele, porém, se ofende quando eu me refiro ao seu estilo peculiar de organização como bagunça. Chamar um de seus cantos favoritos de muquifo, é um acinte! Mas é assim, mesmo… Isso porque ele vê o mundo de uma maneira diferente de mim e da maioria das pessoas.

Além de bagunceiro, ele é acumulador. Tem uma tremenda dificuldade de se desfazer até das caixas de papelão que embalam suas encomendas. Sim… Há várias caixas de papelão vazias na biblioteca, de todos os tamanhos e formatos, “just in case“. E nas raras vezes que eu precisei usar uma dessas caixinhas para alguma coisa, fiquei ouvindo o resto do dia: “Viu, como é bom guardar?”…

Mas neste artigo vou me ater a outra característica do Edu… A ansiedade.

Desde que eu o conheci, ele sempre se mostrou uma pessoa ansiosa. E nunca pretendeu negar, nem para si, nem para os outros, essa característica. Mas, nos últimos dez anos tenho notado uma intensificação em sua ansiedade. Antes, quando íamos para o aeroporto, por exemplo, ele não aceitava sair de casa com menos de quatro horas de antecedência. Nesta última viagem, saímos com seis horas de antecedência…

Como muita gente já sabe, o Edu é maníaco por livros. Quase diariamente ele compra livros, especialmente da Amazon. Embora hoje em dia ele compre muitos livros digitais, ainda faz questão de comprar livros impressos. Muitos. E muitas vezes, em função do valor do frete, manda entregar na casa da Andrea, aqui nos Estados Unidos, em vez de mandar para casa, no Brasil.

Tanto quando a Andrea chega no Brasil, quanto quando ele chega na casa dela aqui, a primeira coisa que ele pergunta é pelos os livros… Quase antes de perguntar pela filha e pelas netas… 🙂

E nesses dias que estamos passando aqui, a história não tem sido diferente. Na casa da Andrea o correio não entrega na porta dela, pois tem umas caixinhas de correio há uns cinquenta metros de distância da casa dela, onde os correios entregam todas as correspondências e encomendas do bairro. Cinquenta metros parece pouco, mas quando a rua está coberta de neve, e o frio está batendo a casa dos 28 graus negativos, esse caminho é longo. Mesmo assim isso não impediu o Edu de visitar quase diariamente a caixinha do correio, para ver se chegou alguma coisa para ele… Mesmo que o sistema de rastreamento da Amazon não informe nenhuma entrega, ele sempre acha bom dar uma olhada lá. Vai que…

Mas hoje ele está esperando uma encomenda que não vem pelo correio. Vem pela UPS, companhia de transporte americana bastante conhecida. Nesse caso a entrega será feita na porta da casa da Andrea, e não na caixinha do correio. Além disso, essa entrega precisa ser feita mediante assinatura do receptor. Pronto, está montado o cenário perfeito para o ataque de ansiedade do Edu.

Ele não sabe o horário que será feita a entrega. A cada dez minutos checa o rastreamento da encomenda no site, e descobriu há pouco que encomenda está a caminho. Saiu de Cleveland, está em uma cidadezinha chamada Girard, há 14 milhas daqui, e vai chegar a qualquer momento, podendo ser apenas no final do dia, uma vez que a empresa provavelmente fará várias entregas hoje.

Ele decidiu, então, ficar plantado na mesa ao lado da janela, de onde tem uma vista privilegiada da porta de entrada da casa. Montou seu escritório com computador, HD externo, livro, celular, caderno de anotação e caneta, e não consegue fazer outra coisa, senão esperar.

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Cada vez que se levanta para ir ao banheiro, pede para eu ficar de olho na janela, para ver se não chega ninguém.

Há pouco ele perguntou se eu, por acaso, não saberia onde tem tachinhas aqui na casa da Andrea, que saiu logo cedo para trabalhar. Eu perguntei para quê, e ele me mostrou o seguinte bilhete que fez para deixar na porta, do lado de fora:

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[UPS – Tem gente dentro – Eduardo – (330) 565-9889 – Bata na porta – Toque a campainha – Por favor]

Eu preciso registrar que esse bilhete é sério. Ele não fez só para eu ter mais uma história para contar aqui no Blog… 🙂

Ele realmente parece se sentir confortável em sua ansiedade, por mais que isso pareça um paradoxo…

Será que sou eu que estou exagerando? Será que ele é um incompreendido, como acredita ser? 🙂

Em Cortland, 09 de Janeiro de 2018.

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