Dia 18 – 20180107: Pré-Modernismo, Modernismo e Pós-Modernismo; ou: o Verdadeiro, o Bom e o Belo

Hoje novamente ficamos em casa. A Paloma tem tido dor de cabeça, não sei se de sinusite, e sair no frio parece que congestiona todo o sistema respiratório superior, causando nariz entupido, boca seca, e, no limite, dor de cabeça. Assim, ficamos em casa.

Quando fico em casa, só lendo e escrevendo, fico inventando moda – ou procurando sarna pra me coçar, como dizia meu pai.

A sarna de hoje é algo relacionado à visão clássica do mundo – visão essa que predominou até o início da era moderna, quando irrompeu na história da filosofia uma visão cética acerca da possibilidade do conhecimento – conhecimento do qual pouca gente havia duvidado no período antigo e medieval. Chamo essa visão clássica do mundo de pré-moderna. O modernismo, iniciado com Descartes e que fruiu no Iluminismo, todo mundo sabe o que é. Ele não tem nada que ver com o modernismo do início do século 20. O pós-modernismo, por sua vez, surgiu na segunda metade do século 20. Eu não sou pós-moderno, nem moderno. Sou pré-moderno. Defendo uma visão clássica do mundo e do conhecimento.

Essa visão clássica do mundo e do conhecimento era centrada em três princípios metafísicos básicos, chamados (quando o Latim se tornou a língua de rigueur) de Transcendentalia: verum, bonum e pulchrum: o verdadeiro, o bom (ou o certo) e o belo.

Vou falar, no que segue, mais da verdade do que do bom (certo) e do belo. Mas vou tocar nos três, aqui e ali.

Para entender a filosofia moderna – período que se sucedeu à era pré-moderna, que, no meu entender, inclui a antiguidade clássica e a idade média — é necessário entender bem a filosofia da pré-modernidade. Aristóteles, mais do que Platão, é o pai desse conjunto de ideias.

Embora haja consideráveis diferenças entre a filosofia antiga e a medieval, e mesmo entre as diversas correntes que constituíram uma e outra, é possível detectar uma certa tendência básica naquilo que poderíamos chamar de filosofia pré-moderna, e que engloba elementos básicos de uma e de outra.

Para a filosofia pré-moderna, em primeiro lugar, a existência daquilo que na filosofia moderna se convencionou chamar de “mundo exterior” (a realidade externa à nossa mente) certamente não é um problema. Para ela, é pacífico que existe um mundo fora de nossa mente, que é objeto de nosso conhecimento. Para ela, isso não precisava sequer ser demonstrado ou provado, porque não havia se tornado um problema: era auto-evidente.

Para a filosofia pré-moderna, em segundo lugar, essa realidade contém objetos e fatos. Objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Tanto objetos como estados de coisas existem, na realidade: eles são descobertos, não constituídos ou construídos. Para a filosofia pré-moderna não fazia nenhum sentido falar na “construção social da realidade” (título de um livro famoso de Peter L. Berger e Thomas Luckmann.

Além disso, e em terceiro lugar, para a filosofia pré-moderna o mundo exterior é objetivamente ordenado. A realidade não é composta meramente de objetos e fatos isolados uns dos outros. Objetos e fatos se vinculam uns aos outros, através de várias relações, dentre as quais a principal é a relação de causalidade (que envolve a relação de contiguidade espaço-temporal mas não se limita a ela).

A relação de causalidade, para a filosofia pré-moderna, existe objetivamente na realidade: um evento realmente causa o outro, e isto é um fato que pode ser constatado. A realidade não é composta apenas por “fatos atômicos” — evento a e evento b, por exemplo — mas também por fatos complexos — evento a causando evento b, por exemplo. A relação de causalidade, portanto, não é redutível à relação de contiguidade espaço-temporal, como diria Hume, já no período moderno (século XVIII).  Ela comporta também o nexo causal.

Isto significa que o mundo possui ordem, e que essa ordem existe independentemente do ser humano. Não é o ser humano que impõe ordem à realidade: esta já é ordenada, cumprindo ao ser humano apenas descobrir a ordem que já existe na realidade. É esse fato que possibilita o conhecimento.

A realidade, para a filosofia pré-moderna, portanto, contém fatos, atômicos e complexos. Esses fatos, como visto, são estados de coisas que existem, na realidade: são descobertos, não constituídos ou construídos. Conquanto possam existir (em um certo sentido do termo “existir”) estados de coisas imaginários ou fictícios, eles não devem ser descritos como “fatos imaginários”. Fatos são coisas reais.

Para a filosofia pré-moderna, em quarto lugar, a verdade é uma relação de correspondência ou adequação entre os juízos de um sujeito e os fatos que são objeto desses juízos. Se o juízo emitido por um sujeito corresponde aos fatos, ele é verdadeiro; se não existe essa correspondência entre o juízo emitido e a realidade, ele é falso. A realidade não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos juízos acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

Em quinto lugar, juízos, que também podem ser chamados de enunciados ou proposições, são entidades lógicas, não linguísticas – embora eles se expressem linguisticamente. Juízos, enunciados ou proposições são a matéria prima do pensamento. São eles que podem ser verdadeiros ou falsos. Uma frase ou uma oração pode ser bem construída, elegante, mexer com as emoções, mas ela não é verdadeira ou falsa.

Para a filosofia pré-moderna, em sexto lugar, temos evidência da verdade ou não de nossos juízos através principalmente dos sentidos, pela percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós. Embora seja notório que às vezes nos enganemos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia pré-moderna.

Para a filosofia pré-moderna, em sétimo lugar, é possível, partindo dos sentidos, descobrir fatos sobre a realidade que transcende os sentidos: a chamada realidade supra-sensível (ou o que comumente se chama de “sobrenatural”). Em geral, acreditava-se que era possível descobrir fatos acerca de Deus (por exemplo) pela chamada “via natural”, ou seja, apenas refletindo sobre os fatos descobertos pelos sentidos.

Para a filosofia pré-moderna, em oitavo lugar, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados nos fatos que compõem a realidade (sensível ou supra-sensível). Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, e um objeto, que é conhecido.

A filosofia pré-moderna não duvida de que tenhamos conhecimento da realidade: ela é plenamente confiante no conhecimento humano. Na verdade a confiança é tanta que ela pode falar, sem embaraço, em milagres. No período pré-moderno não há maiores problemas no conceito de milagre. Um milagre é um evento que, se ocorrer, viola ou suspende a ordem objetiva existente na realidade. Para a filosofia pré-moderna, milagres, se de fato existem, acontecem no nível da realidade, e não apenas no nível de nosso conhecimento da realidade. Sua definição envolve referência ao plano ontológico e metafísico, não apenas epistemológico. Milagre não é apenas um nome para nossa ignorância da ordem (como diria Spinoza mais tarde): o milagre é uma violação ou suspensão da ordem objetiva existente na realidade. Por isso é que se acreditava que eles eram de suma importância: se de fato existem, eles provam alguma coisa. Falar em milagres, porém, não quer dizer acreditar neles. Se realmente acontecem ou não é outra questão. Nem todos os filósofos pré-modernos acreditavam que milagres aconteciam. Mas não tinham dificuldade com o conceito.

Para a filosofia pré-moderna, por fim, e em nono lugar, a pedagogia é o processo através do qual o infante (ou mesmo o adolescente, o jovem, o adulto, o idoso) é levado a conhecer e a descobrir fatos, é o processo de condução do sujeito ao objeto.

A filosofia moderna, iniciada por Descartes, e que encontrou seu ponto culminante em Kant e Hegel, passando pelos Racionalistas Continentais (Leibniz e Spinoza) e pelos Empiristas Britânicos (Locke, Berkeley e Hume), infelizmente veio a questionar todos esses nove pontos – e esse questionamento não redundou em progresso, mas, sim, em regressão.

A filosofia era considerada, pelos pré-modernos, como a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

Na filosofia moderna, entretanto, a razão é frequentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia moderna existe uma corrente irracionalista tão forte que, encontrou no século XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.

Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos ponto de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.

Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem os mais estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista.

Igualmente, o ceticismo tem sido um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, dizem Sócrates e o cético, é que nada sei.

Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou os de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto os pontos de vista de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as ideias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.

Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o budismo a partir do catolicismo romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de ideias, de pontos de vista, de cultura, enfim.

Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um misto de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento, então não há como ser racional. Por que adotar este — e não aquele — ponto de vista? Por que pronunciar verdadeiro este — e não aquele — ponto de vista? Por que considerar este curso de ação bom ou certo – e não aquele? Por que preferir esta — e não aquela — obra de arte?

A filosofia pré-moderna (antiga e medieval) sabia como resolver essas questões. A filosofia moderna desaprendeu de fazer isso.

Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.

A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que “paradigmas” semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infra-estruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas e estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as decorrentes de trabalho sério e rigoroso; em que autoexpressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra-sugestionáveis são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

Foi nesse clima que surgiu o chamado pós-modernismo.

Nele, as chamadas “Leis da Lógica” – andar dos mais importantes do edifício filosófico da antiguidade grega — são hoje desprezadas.

Essas leis, hoje desprezadas, são as seguintes:

  • Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juízos morais e juízos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
  • Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
  • O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).

Também são desprezadas hoje teses metafísicas e epistemológicas fundamentais da filosofia pré-moderna, como, por exemplo:

  1. a) A primazia da realidade sobre os conceitos: a realidade existe independentemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela e, através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
  2. b) A primazia dos conceitos sobre as palavras: é o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico);
  3. c) A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da ciência);
  4. d) Existe conhecimento ético: julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra emotivismo ético, etc.);
  5. e) Existe objetividade na arte (contra expressionismo, etc.).

No período pré-moderno havia uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca. Tanto essa atitude como essa convicção foram perdidas no período moderno. A maior contribuição que a educação atual pode dar ao nosso mundo é recuperar algumas tendências da educação e da visão de mundo da pré-modernidade.

Caminho para a conclusão.

Voltaire, um dos filósofos modernos mais interessantes, gostava de brincar com as coisas e de fazer chistes. Uma vez disse que nunca havia contado uma mentira sequer, mas que havia inventado muitas verdades…

Esse bon mot é divertido mas contradiz um princípio básico da filosofia pré-moderna: a verdade não se inventa, ela se descobre. É a mentira que é uma invenção. A  verdade sobre algum aspecto da realidade é uma só, não várias – mas para cada verdade pode haver inúmeras mentiras.

De igual maneira, o bom e o certo (bonum) são apenas um em relação a algum aspecto da realidade. O bonum corresponde à natureza humana. O que não corresponde é malum (mau, errado).

Leão Tolstói começa o seu romance Ana Karenina afirmando o seguinte. “As famílias felizes são todas iguais. No caso das famílias infelizes, porém, cada uma é infeliz do seu próprio jeito.” A tese pressuposta por Tolstói é que as famílias que são felizes buscam o que é bom e certo – e só uma coisa que é boa e certa, em relação a cada aspecto da realidade, razão pela qual elas são todas iguais. Mas a infelicidade, como a mentira, é plural. Há inúmeros jeitos de ser infeliz.

Ele poderia ter dito também que a beleza é una, tudo que é belo, ou todos os belos, são muito parecidos; mas a feiúra é múltipla: cada coisa que é feita, ou cada pessoa, é feia, cada uma delas, à sua própria moda…

É nessas coisas que um filósofo fica pensando quando não tem o que fazer. A filosofia, para prosperar, exige uma boa dose de ócio ou de vagabundagem, como os que tenho encontrado aqui…

Em Cortland, 7 de Janeiro de 2018.

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