Crônica Extra: Uma Experiência Constrangedora

Resolvi narrar em separado uma experiência que tive ontem. Confesso que hesitei bastante antes de decidir fazer isso (narrar a experiência), por um certo pudor masculino, mas, por fim, resolvi que valia a pena contar toda a história, sem omitir sequer os detalhes mais, digamos, sórdidos. Eu, em geral, não sou muito friorento. Passei, por exemplo, 32 dias na Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça, França, no ano passado, no auge do Inverno, agasalhando razoavelmente bem o peito, a garganta e a cabeça (esta com um boné de couro preto, estilo francês, que tenho há anos), mas usando calças normais, não muito grossas, sem nada por baixo (além do mínimo exigido) — e não morri de frio, nem passei um frio insuportável.

Mas aqui no Norte dos Estados Unidos, perto do Lago Erie, que divide o país do Canadá, a coisa está feia, é bom que se diga. Tinha, até ontem, saído com uma calça normal que uso no  Brasil, quando vou a algum lugar mais importante, mas, de resto, tenho usado mesmo um confortável (e bonito) moleton cinza, não muito grosso, que ganhei de minha filha Patrícia no último Dia dos Pais. Mas tenho sentido bastante frio nas pernas (até a cintura, para dizer a verdade), preciso admitir.

Esse fato me deixou vulnerável a uma sugestão que, em condições normais, eu nunca cogitaria de considerar seriamente: a Paloma me convenceu, depois de muita argumentação, back and forth, a usar uma malha preta, agarrada ao corpo, que pertence a ela, e que ela, como quase toda mulher, nestes invernos severos, usa – e, pelo que parece, vários homens também. A malha é preta, sem bolinhas brancas, e, muito menos, sem coraçõezinhos vermelhos. Pretíssima: inspira seriedade.

Mas eu relutei em aceitar os argumentos da Paloma — até ontem. O frio ontem estava bravo, e como a gente ia só até à Best Buy e ao shopping, e a chance era pequena de ter um acidente de carro e ir parar no hospital, e, lá, ao ser despido, ser pego naquela indumentária, resolvi tentar.

Mas não foi fácil. Primeiro, precisei da ajuda da Paloma para conseguir vestir the damned thing: é muito justa – é quase um modelador.

Segundo, uma vez vestido, senti-me totalmente espremido, com dificuldade até para andar, quanto mais para agachar para amarrar o sapato, por exemplo.

Terceiro, embora tenha vestido o moleton por cima da coisa, minha sensação era de que estava só com aquela peça, como se fosse um Mikhail Baryshnikov em pleno palco, e que todo mundo podia perceber que eu estava usando aquilo… Por pouco não comecei a andar na ponta dos pés! A peça de baixo deixava o meu corpo totalmente insensível ao moleton, por cima, dando-me uma impressão horrível e uma sensação muito pior ainda.

As recomendações (na verdade, broncas) da Paloma para eu deixar de ser bobo e tão inseguro acerca de minha masculinidade de nada valeram. Senti-me totalmente abestado. Não vi a hora de chegar em casa e remover a peça, para nunca mais usa-la – bom, a menos que a temperatura (ou pelo menos a sensação térmica) chegue a -30.

Mas estou decidido a procurar nas lojas algo — como direi? – mais adequado à natureza e à anatomia masculina, que não aperte tanto e que não faça a gente se sentir tão fora da “casca” da gente… Penso assim em algo parecido com aqueles chamados “mijões” meio amarelados que o pessoal do Exército usava nos bons tempos, antes da Ditadura Militar. (Não sei se continuaram a usar durante e depois). Felizmente, nunca servi ao Exército, nem fiz Tiro de Guerra, mas fiquei conhecendo os tais mijões, e até ganhei um ou dois deles, quando meu amigo de infância em Santo André, e, depois, colega de escola no Instituto José Manuel da Conceição (JMC), Paulo Cosiuc (descendente alto e fortão de russos e ucranianos) teve de servir o Exército (foi na área da chamada Polícia do Exército), enquanto estudávamos juntos. Naquela época, em que eu estava recém saído da adolescência, pareceu-me que, se o Paulão usava aquilo, e os militares todos também (segundo ele me garantiu), não haveria maiores problemas em eu, de vez em quando, usar, quando o frio de Jandira ficasse por demais severo… 🙂 O ano era 1961, e o mundo era cheio de preconceitos. Hoje a gente pode sair até coberto de lantejoulas que ninguém vai “ponhar reparo”, como diz o outro. Mas 56 anos atrás o desafio era maior.

Relato o caso por duas razões. Primeiro, para encorajar os menos ousados. Segundo, porque, segundo Gabriel Garcia Marquez, não vale a pena viver a vida se não for para conta-la, não é verdade? Mas contar só aquilo que não nos constrange parece uma covardia.

Em Cortland, 5 de Janeiro de 2018

 

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