Dia 14 – 20180103: Finalmente uma Ida à Best Buy

Comecei a escrever neste blog no dia 21/12/17, que foi o dia em que saímos de Salto, “com mala e cuia”, em direção a São Paulo, dando início à nossa viagem. Ficamos em São Paulo de 21 a 26/12/17, celebrando aniversários, participando de jantares e almoços, terminando de arrumar as coisas para poder viajar. Do dia 21/12/17 para cá, escrevi um artigo para cada dia – este que estou a escrever agora sendo o décimo quarto. A Paloma escreveu um, também, o que faz com que o nosso Diário de Bordo tenha, quando eu completar este artigo, quinze comentários aos nossos dias, de tamanhos diferentes e qualidade variada. Há dias em que acontecem mais coisas ou coisas mais interessantes. E há dias em que estamos mais inspirados e, por isso, escrevemos melhor. De qualquer forma, é um exercício interessante viajar preocupado com observar, às vezes as pequenas coisas, a que ninguém dá muita atenção, para pode conta-las de forma interessante. Gabriel Garcia Marquez escreveu sua biografia e lhe deu o nome de Vivir para Contarla. A ideia é que um escritor profissional, como ele, vive a vida com o intuito específico de conta-la, de narrar o que viveu – ainda que seja na forma de ficção, dando nome diferentes aos personagens, colocando-os m lugares diferentes, embelezando um pouco os ambientes, etc., mas mantendo a essência das experiências vividas. Quando se trata de uma biografia, ou de um Diário de Bordo, como este, espera-se que o autor, como princípio, mantenha fidelidade aos fatos, não usando sua criatividade para inventa-los ou para lhes dar mais charme… No entanto, existem registros de autobiografias, ou de obras que, supostamente são biográficas (como a maior parte dos livros de Simone de Beauvoir), em que os autores admitem que não têm compromisso com os fatos, que não se limitam a contar a verdade. Em casos assim, os limites entre (de um lado) a história, o jornalismo, a biografia, e especialmente a autobiografia, e (de outro lado) a ficção ficam indistintos, difíceis de visualizar com clareza e nitidez, “blurred” como a visão de um míope severo sem seus óculos…

O famoso escritor inglês Graham Greene, de quem eu gosto muito, escreveu um livro chamado The End of the Affair (O Fim do Caso) sobre um escritor que tem um caso sério com a mulher de um bom amigo seu, alto funcionário do governo britânico. Não é um caso qualquer, superficial, como tantos: é uma paixão avassaladora, cheia de ciúmes e possessões. Do marido dela ele não tem ciúmes porque seria uma loucura tê-lo, mas de outros o ciúme fica doentio. A história é fascinante e se desenrola em três momentos diferentes, na Londres da Segunda Guerra (de um pouco antes, de durante e de um pouco depois). Não vou contar os detalhes. Só menciono a história porque ela narra, com nomes diferentes e a introdução de alguns elementos diferenciadores, a história de um caso notório (porque conhecido de todos os seus amigos) do próprio autor! O romance disfarça tão pouco os fatos que, depois de publicado, o marido traído resolveu processar o autor por tornar público um caso que deveria ter permanecido privado, desmoralizando, assim, a sua imagem de homem público… (Aparentemente, o marido traído não se importava tanto com a traição em si, que ele parecia considerar um episódio sem importância, mas, sim, com a sua divulgação pública, pois esta prejudicava sua reputação!)

[Nota Técnica sobre o livro e dois filmes feitos sobre ele. O livro foi publicado em 1951 (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/The_End_of_the_Affair). Foram feitos dois filmes sobre esse livro, um lançado em 1955, com Van Johnson e Deborah Kerr (Vide http://www.imdb.com/title/tt0048034/), e outro, este simplesmente maravilhoso, de 1999, com Ralph Fiennes e Julianne Moore (Vide http://www.imdb.com/title/tt0172396/). Recomendo sem reservas tanto o livro como o segundo filme].

Em um dos livros de Mario Vargas Llosa (Prêmio Nobel de Literatura de 2010) que eu acho mais interessantes, La Verdad de las Mentiras: Ensayos sobre la Novela Moderna [1a ed. 1990, 2a ed. 2002. (Escrevi uma resenha desse livro, em Inglês, para a Amazon, que está publicada em um de meus blogs: vide https://chaves.space/2017/08/24/review-of-la-verdad-de-las-mentiras/. Compare-se também o artigo sobre o livro na Wikipedia em Espanhol, em https://es.wikipedia.org/wiki/La_verdad_de_las_mentiras)], ele analisa várias obras primas da literatura do século 20 (25 na primeira edição, 35 na segunda), procurando mostrar que obras de ficção — que supostamente nos contam mentiras — contém, frequentemente, mais verdades (sobre a natureza e o predicamento humano, por exemplo) do que as obras que não pretendem ser de ficção, como as obras históricas, jornalísticas (o jornalismo sendo, presumivelmente, a história do presente) e biográficas (entre as quais se incluem as auto-biográficas). O livro é fantástico — só a introdução mais filosófica de Vargas Llosa já valendo o preço.

[Nota Técnica: São estes os livros analisados em La Verdad de las Mentiras, os títulos sendo fornecidos em Espanhol. Acrescentei o título no original, quando o sabia de cabeça. Quando voltar para casa, em Salto, dou o título no original das demais obras:

[Analisadas na primeira edição]

La muerte en Venecia (Der Tod in Venedig), de Thomas Mann, 1912.
Dublineses (Dubliners), de James Joyce, 1914.
Manhattan Transfer (Manhattan Transfer), de John Dos Passos, 1925.
La señora Dalloway (Mrs. Dalloway), de Virginia Woolf, 1925.
El gran Gatsby (The Great Gatsby), de F. Scott Fitzgerald, 1925.
El lobo estepario (Der Steppenwold), de Hermann Hesse, 1928.
Santuario (Sanctuary), de William Faulkner, 1931.
Un mundo feliz (Brave New World), de Aldous Huxley, 1932.
Trópico de Cáncer (Tropic of Cancer), de Henry Miller, 1934.
Auto de fe (Die Blendung), de Elias Canetti, 1936.
El poder y la gloria (The Power and the Glory), de Graham Greene, 1940.
El extranjero (L’Étranger), de Albert Camus, 1942.
La romana (La Romana), de Alberto Moravia, 1947.
Al este del Edén (East of Eden), de John Steinbeck, 1952.
No soy Stiller (Stiller), de Max Frisch, 1954.
Lolita (Lolita), de Vladimir Nabokov, 1955.
El doctor Zhivago (‎Доктор Живаго), Boris Pasternak, 1957.
El gatopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, 1958.
El tambor de hojalata de Günter Grass, 1959.
La casa de las bellas durmientes de Yasunari Kawabata, 1960.
El cuaderno dorado (The Golden Notebook), de Doris Lessing, 1962.
Un día en la vida de Iván Denisovich (Оди́н день Ива́на Дени́совича), de Aleksandr Solzhenitsyn, 1962.
Opiniones de un payaso de Heinrich Böll, 1963.
Herzog (Herzog), de Saul Bellow, 1964.
París era una fiesta (A Moveable Feast), de Ernest Hemingway, 1964.

[Análise acrescentada na segunda edição]

El corazón de las tinieblas (Heart of Darkness), de Joseph Conrad, 1902.
Nadja de André Breton, 1928.
La condición humana [La Condition Humaine] de André Malraux, 1933.
Siete cuentos góticos (Seven Gothic Tales / Syv Fantastiske Fortællinger), de Karen Blixen (sob o pseudônimo de Isak Dinesen), 1934 (escrito em Inglês e traduzido para o Dinamarquês, lingua nativa dela, pela própria autora)
El cero y el infinito (Le Zéro et l’Infini), de Arthur Koestler, 1940.
La granja de los animales (Animal Farm), de George Orwell, 1945.
El reino de este mundo (El Reino de Este Mundo), de Alejo Carpentier, 1949.
El fin de la aventura (The End of the Affair), de Graham Greene, 1951.
El viejo y el mar (The Old Man and the Sea), de Ernest Hemingway, 1952.
Sostiene Pereira (Sostiene Pereira), de Antonio Tabucchi, 1994.

Note-se que apenas Graham Greene e Ernest Hemingway têm duas obras incluídas no livro de Vargas Llosa — e uma de Greene é a que mencionei atrás. Registre-se também o seguinte. Em sua resenha de A Moveable Feast, de Hemingway, a Amazon afirma: “In the preface to A Moveable Feast, Hemingway remarks casually that ‘if the reader prefers, this book may be regarded as fiction’ — and, indeed, fact or fiction, it doesn’t matter, for his slim memoir of Paris in the 1920s is as enchanting as anything made up and has become the stuff of legend.”.  Fim da Nota Técnica.]

É interessante especular sobre os limites entre os territórios da realidade e da ficção, da verdade e da mentira. Crescemos induzidos (pelos pais, pela igreja, pelos partidos políticos, pela escola, etc.) a acreditar que esses limites são claros, nítidos e precisos. Mas hoje sabemos (e Freud nos ajudou a entender isso) que até mesmo quando crianças escondemos de nós mesmos (reprimimos) partes da realidade (da vida vivida) que nos fizeram sofrer, acontecimentos doídos e dolorosos, traumas diversos – para que possamos tentar viver mais felizes. Mas não só isso. Crianças são mestres na arte de “inventar verdades” (como dizia Voltaire), de criar amigos que de fato inexistem, de fabricar acontecimentos para evitar broncas e punições… Isso por vezes é feito consciente e intencionalmente, mas outras vezes acontece sem que a pessoa se dê conta de que está se passando… Construímos “realidades” à margem da realidade, distorcemos o que de fato acontece conosco, dando aos fatos um tom mais palatável… Mas também nos punimos por erros que imaginamos que cometemos (quando na realidade não os cometemos, ou quando o que de fato fizemos não foram erros), e, assim, assumimos culpas que inexistem ou que, mesmo que existam, não são nossas e não deveriam pesar sobre nossos ombros… Terapeutas existem e têm bastante trabalho porque, além das coisas ruins que de fato nos acontecem, e que atrapalham nossas vidas, trazemos para nós responsabilidades e culpas que inexistem ou que, se existem, não são nossas…

As religiões, como Freud tentou mostrar em O Futuro de uma Ilusão, não passam de conjuntos de histórias e narrativas que os seres humanos e os povos, ao longo do tempo, inventam para tornar sua vida mais interessante, mais promissora, mais plena de esperanças… Freud era judeu. Mas era assim que ele via o que considerava a ilusão de um povo, originado em Ur da Caldéia, que veio a acreditar que era o povo preferido de Deus, o povo que Deus escolheu como seu, em detrimento dos outros, o povo a quem Deus prometeu uma terra em que manava leite e mel e uma descendência que seria tão ampla quanto as estrelas do céu e os grãos de areia na praia… É bem melhor viver na certeza (as invenções viram certezas absolutas e verdades indiscutíveis) de Deus e sua providência estão trabalhando a nosso favor e que nenhum fio de nossa cabeça cai a menos que ele, não só o permita, mas o queira e determine!

Enfim… Ocorreu-me escrever isso para, talvez, me desculpar de algum erro involuntário e inconsciente nestas mal traçadas linhas… O que me proponho fazer aqui é autobiografia, é história, ainda que os fatos narrados estejam longe de ser importantes para outros além de mim e da Paloma. Mas o contar histórias, ainda que verdadeiras e não inventadas, é um passatempo antigo e tradicional apenas porque há pessoas que gostam de ler os relatos do que os outros fazem, seja porque acham esses relatos interessantes em si mesmos, seja porque consideram as narrativas atraentes por estarem apresentadas em linguagem agradável e estilo atraente, seja porque acreditem que podem aprender alguma coisa com a experiência alheia… Cedo em sua história o ser humano descobriu que não era necessário aprender tudo o que tinha de aprender passando pelos mesmos erros que seus antepassados cometeram, mas, sim, aproveitando os seus acertos e evitando os seus erros.

Mas deixemos de filosofar e vamos aos fatos (embora ainda seja cedo, oito e pouco da manhã). Hoje vamos sair na hora do almoço, com a Andrea, quando ela for dar o seu plantão na imobiliária onde trabalha, e ela vai nos deixar na Best Buy, a nossa loja de eletrônicos favorita. A Best Buy já foi melhor, e houve época em que havia várias lojas parecidas com ela, concorrentes suas que acabaram perdendo a competição e desaparecendo do mercado: CompUSA, Circuit City, e tantas outras menores. Sobrou a Best Buy, que, sozinha, relaxou um pouco na qualidade de seus produtos e serviços. Mas ainda é um paraíso para os brasileiros acostumados a pagar 60 reais por um cabinho não original para carregar um iPhone, ou 125 reais por um cabinho supostamente original mas que vem numa embalagem fajuta… Aqui o cabinho original custa 19 dólares – na Apple. Hoje vamos à Best Buy sem intenções pré-determinadas, mais para olhar (browse), sem compromisso de levar nada. Mas certamente vamos sair de lá com alguma besteirinha cujo preço estiver irresistível para nossos bolsos brasileiros… 🙂

Estou sendo chamado para tomar café. O sol já está bem altinho e o dia está bonito. Mas os próximos dias prometem ser ainda mais frios do que os que já passaram…

Até mais tarde. Prometo voltar e fazer um adendo a este artigo.

ADENDO: Escrito depois da meia-noite, ou seja, já no dia 4/1/2018.

A Paloma e eu fomos à Best Buy. A Andrea nos deixou na Pannera, que fica pertinho da Best Buy, e foi trabalhar. A Pannera é um fast food bem arrumadinho, que vende sanduíches, sopas e saladas — além de sobremesas. Comemos, cada um de nós uma sopa. A Paloma, uma sopa de batatas com bacon, etc. Eu, uma sopa de cebola, gratinadinha, com croutons, bem ao estilo francês. De lá fomos à Best Buy, andando sobre a neve. Brasileiro faz questão de não procurar as calçadas limpinhas e os caminhos com pouca neve: gosta mesmo é de andar metendo o pé na neve acumulada no chão, para poder contar a história…

Na Best Buy, fiquei, em primeiro lugar, decepcionado pelo que me pareceu a decadência. Estava me lembrando dos bons tempos, na primeira década deste milênio, quando você entrava na loja e tinha a impressão de estar entrando no Santo dos Santos da Tecnologia: só de software havia umas dez fileiras de gôndolas, outro tanto para acessórios de microcomputadores, e assim vai. Agora as gôndolas foram em grande medida substituídas por blocos quadrados com displays de produtos: o da Apple Telephones, o da Apple Computers, o da Google, que tem uma mistura de telefones Pixel, de computadores Chrome, de gadgets diversos (óculos de terceira dimensão, etc., o da Amazon, que tem Kindles, Tablets, Processadores de Comandos Echo / Alexa, etc. Outros fabricantes de computadores sumiram: Dell, HP, Lenovo, Asus, etc. Há também setores de máquinas fotográficas, de roteadores, de discos rígidos, de cartões de memória… Os pens drives sumiram: tornaram-se coisas do passado. Discos rígidos externos USB de 4 TB, de 2,5”, que eram mais caros do que os de 3,5”, que exigem fontes de eletricidade, agora estão mais baratos, custando por volta de 100 dólares. Começam a sofrer a concorrência de “Discos” de Estado Sólido (SSD) de 1 e 2TB, que, entretanto, custam mais caro. Por outro lado, a loja está cheia de televisores, geladeiras e freezers, etc. Não se vendem mais CDs de música — e os DVDs e Blu-Rays existem em pequeníssima quantidade: tudo isso é obtido em streaming, sob demanda. Paga-se o uso, não a posse do produto.

Compramos algumas besteirinhas. A Paloma concentrou sua atenção em acessórios para a sua câmera Go Pro 5, que aqui são baratinhos: paus de selfie (que, descobri através da Paloma, foram inventados pela Go Pro), tripés pequenos, mecanismos para fixar a câmera na cabeça, ou filmar debaixo da água, Deus sabe mais o quê. Eu comprei um disco rígido externo USB de 4TB, 2,5”. um extensor de sinal WiFi para roteadores CISCO (LinkSys) que posso usar em São Paulo e no sítio, um cartãozinho de memória e uma capa para meu tablet Fire 8” da Amazon, que havia comprado anteriormente por 79 dólares, etc. Ficamos bem umas três horas lá dentro, contrário ao que eu imaginava possível.

Vou ter de voltar à loja amanhã porque o disco rígido deu problema ao ser formatado para o MacOS… Engripou e não pra frente e nem deixou que eu tentasse voltar à estaca zero…

Na volta, comemos comida mexicana: enchiladas. Tomei o meu vinho chileno Concha y Toro, que aqui custa metade do preço que pago no Brasil e pode ser comprado em semi-garrafões de 1,5l. Não é nenhuma Brastemp, mas é bom para todo dia.

É 1 da madrugada do dia 4/1 e.a Paloma acordou com sede… Muita sede, disse. Trouxe-lhe um copão de água gelada e tomou tudo. Acho que foi a enchilada, que é bem temperada…

Tivemos notícias de que o pai da Paloma não está bem de saúde e que o irmão dela quebrou o pé feio jogando futebol — podendo ter de ficar até três meses na cama, com placa de metal no pé, para substituir osso quebrado miudinho, reconstrução de ligamentos, etc. Pobre Rafael: formado em educação física, gosta tanto de jogar futebol, mas depois dessa possivelmente só em video game… São coisas da vida. Como dizia uma música da década de setenta, creio, nem tudo na vida é um jardim de rosas. Na música o cara canta para a moça que “I never promised you a rose garden”. Quem jamais prometeu isso?

Volto mais tarde, hoje, dia 4/1, quinta-feira, para escrever sobre o dia de hoje.

Em Cortland, 3 de Janeiro de 2018, complementado na madrugada de 4 de Janeiro.

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