Dia 04 – 20171224: Acolhendo o Estrangeiro

Quero discutir neste artigo, escrito na Véspera de Natal, duas organizações que fizeram com que eu, como aluno estrangeiro nos Estados Unidos, me sentisse extremamente bem acolhido. Em ambos os casos se trata de organizações não-governamentais, financiadas por grupos de pessoas, não raro com o apoio de várias empresas e outros tipos de instituições, e, o mais das vezes, operada por voluntários.

Uma, a primeira que vou discutir, é típica de Pittsburgh, PA. Não conheço outra cidade que tenha organização semelhante – embora, naturalmente, possa haver, dentro ou fora dos Estados Unidos. A outra opera, que eu saiba, nos Estados Unidos como um todo. Ambas são replicáveis. Instituições semelhantes podem ser criadas em qualquer cidade, estado ou país, com um pouco de boa vontade, generosidade e articulação – e uma boa dose de visão.

1. Pittsburgh Council for International Visitors – PCIV

Travei conhecimento com o PCIV antes mesmo de ir para os Estados Unidos. Embora a instituição busque acolher estrangeiros de qualquer categoria que cheguem à cidade, alunos, professores, empresários ou até mesmo turistas e outros visitantes ocasionais, vou falar do acolhimento de alunos estrangeiros, que é a categoria que conheço melhor, por ter feito parte dela.

Quando um  estrangeiro busca admissão a uma universidade americana (ou mesmo a uma escola de educação básica), uma série de procedimentos são desencadeados. Vou falar prioritariamente do acolhimento de estudantes que vão aos Estados Unidos em busca de uma educação de nível superior, de graduação ou de pós-graduação – que, novamente, é aquela que conheço melhor.

A pessoa que deseja estudar nos Estados Unidos em geral ele contata uma universidade ou um “college” ou um seminário (“colleges” e seminários são instituições de menor amplitude ou de foco mais específico), ou, em casos mais excepcionais, é contatada pela instituição. O contato sendo positivo, começa um processo que eles chamam lá de “application for admission”, que deve ser traduzido como “solicitação ou requerimento de admissão”. As instituições educacionais têm suas prioridades e normas e o solicitante ou requerente de admissão em regra tem de submeter uma série de informações e documentos para análise. Normalmente não há algo parecido como um exame vestibular ou assemelhado, ou um processo de seleção parecido com os usados pelos nossos programas de pós-graduação, mas os procedimentos implicam, necessariamente, uma avaliação do “casamento” entre a visão e as normas e prioridades da instituição com o perfil do candidato. No caso de instituições pagas (a maioria, mesmo que públicas), explicitam-se, nesse processo os custos de estudar na instituição (mensalidades, taxas, alimentação, hospedagem ou residência em instalações da instituição, etc.) e a existência ou não de mecanismos de apoio como bolsas e empréstimos para candidatos que não tiverem os recursos necessários. Sendo o candidato aceito, a instituição emite uma declaração formal de aceitação e envia a ele uma série de formulários que ele deve preencher e submeter para obter um visto de entrada nos Estados Unidos que lhe permita estudar na instituição. Esses vistos em geral têm duração de um ano, precisando ser renovados a cada ano (a instituição emitindo uma nova declaração a cada ano para certificar, junto ao governo americano, que o aluno está habilitado a continuar a estudar lá).

Esclareço esses procedimentos, porque ele são úteis para entender como o PCIV opera na área da educação (em especial na de nível superior).

Pittsburgh é uma cidade de múltiplas e tradicionais universidades e instituições educacionais de nível superior (colleges, seminários, etc.), como já mencionei em artigos anteriores deste blog ao falar da idade do Pittsburgh Theological Seminary e da University of Pittsburgh, instituições das quais fui aluno nos cinco anos que vivi em Pittsburgh. O PCIV tem acordos de colaboração com virtualmente todas essas instituições, mediante o qual elas informam o Concílio acerca de cada aluno estrangeiro que é aceito para estudar na instituição no ano letivo seguinte. Como o ano letivo em geral começa em Setembro, por volta de Abril ou Maio as decisões estão tomadas e o PCIV tem uma lista de nomes, endereços e perfil de virtualmente todas as pessoas estrangeiras aceitas para vir realizar seus estudos em Pittsburgh no Outono (deles). Da mesma forma que tem acordos de colaboração com as instituições educacionais, o PCIV tem uma rede de contatos, que envolve pessoas físicas, famílias, igrejas, ou outras instituições interessadas em ajudar o PCIV a proporcionar aos estrangeiros que chegam a Pittsburgh uma acolhida que ajude os recém chegados a se sentir em casa, ou mais em casa, e que lhes forneça um conjuntos de informações, bem como um networking inicial, que lhes permita começar a conhecer a cidade, os seus recursos, e o seu potencial.

Como, em 1967, quando fui aceito pelo Pittsburgh Theological Seminary, não havia ainda Internet, e-mail, websites, etc., o PCIV preparava, com base  nos dados fornecidos pelas instituições educacionais, um resumo das informações acerca das pessoas que iriam chegar à cidade no Outono e o distribuía, na forma de uma newsletter, para sua rede de “acolhedores” em potencial.

Enfim, para minha surpresa, no mês de Junho de 1967 fui contatado por uma família, os Eichleay, explicando o PCIV e me convidando para chegar em Pittsburgh uma semana ou dez dias antes da data prevista para estar presente na instituição educacional e desfrutar esse período na companhia da família em questão, em sua residência, me perguntando acerca de meus conhecimentos de Pittsburgh e de meus interesses (esportes, música, igrejas, etc.) para que eles pudessem preparar um programa que me mostrasse os aspectos de Pittsburgh que mais poderiam me interessar e me pusessem em contato com outras pessoas ou instituições que me fizessem sentir mais “enredado” na malha social da cidade. Achei uma iniciativa fantástica e disse que teria o maior prazer em chegar uma semana mais cedo e combinamos todos os detalhes.

Como já disse em vários artigos nos meus blogs (o último dele sendo “Cinquenta Anos de Carreira Internacional…”, em meu blog Chaves Space, no endereço https://chaves.space/2017/08/19/50-anos-de-carreira-internacional/, escrito no dia 19 de Agosto de 2017, em que eu comemorei 50 Anos de minha primeira ida para os Estados Unidos, 19 de Agosto de 1967), no dia 20 de Agosto de 1967, um domingo, eu cheguei ao Pittsburgh International Airport e fui recebido pelos Eichleays (o casal. Bill & Ernestine, e uma filha de 13 anos, Stephanie). Como era cerca de meio-dia, eles me levaram para almoçar, depois circularam comigo pelo centro de Pittsburgh, e, lá para as 16 horas me levaram para sua casa, onde me instalaram no quarto muito bem montado, no que chamaríamos de porão da residência, em que havia, além do quarto, uma sala com televisão privativa e sofás, bem como com um banheiro completo, com banheira e tudo. Em suma: estaria ali, por sete dias, mais bem instalado do que eu jamais havia estado… Nos dias seguintes, eles me levaram para assistir concerto da sinfônica, disso eu já havia visto vários no Municipal de São Paulo, ver jogo de baseball, que eu nunca havia visto na vida, nem conhecia, mostraram-me museus, shoppings, etc., enfim coisas que eles acharam que poderiam ser de meu interesse, dada a minha “ficha” e com base nas conversas que íamos tendo…

Mas o trabalho do PCIV não se limitava a essa acolhida inicial. Durante os cinco anos em que estive em Pittsburgh, recebi, sempre que desejei e pedi, bilhetes grátis para concertos da Orquestra Sinfônica, jogos dos Pirates ou dos Steelers, e uma série de outros eventos que o PCIV anunciava, mensalmente, por newsletter, ou, num bulletin board, numa sala que o PCIV tinha dentro da própria University of Pittsburgh. Na época de Thanksgiving ou de Natal o PCIV organizava eventos ou oferecia oportunidades de passarmos o feriado com famílias que se voluntariavam para nos acolher, etc. Os bilhetes eram fornecidos gratuitamente ao PCIV pela Sinfônica, pelos times esportivos, etc., à guisa de promoção, e o PCIV os distribuía numa base de “first come, first get”.

Em resumo, o PCIV me proporcionou uma série de experiências fantásticas em Pittsburgh que eu, provavelmente, nunca teria tido não fossem a proatividade e o protagonismo da instituição.

Para uma descrição mais completa do que o PCIV oferecia eis o que consta de uma página sobre a instituição no site da Pitt:

“Pittsburgh Council for International Visitors

The Pittsburgh Council for International Visitors (PCIV)  is an independent, nonprofit community organization located in downtown Pittsburgh at 425 Sixth Avenue, Suite 1130. The organization’s mission is to promote cultural, educational and commercial ties between Western Pennsylvanians and other peoples of the world. PCIV serves visitors sponsored by the U.S. Information Agency and other governmental agencies, as well as those sponsored by regional businesses, universities and medical centers. PCIV arranges for international visitors to interact with their regional peers on professional and informal levels using a network of more than 2,500 volunteers annually. The organization’s services available to the University’s academic departments and divisions on a cost-recovery basis include the arrangement of: professional itineraries and site visits; dinners with regional families; three- to seven-day homestays; and tours of the city in English or a second language. A series of group visits to regional resources, dinners with host families, holiday hospitality and tickets to cultural events are available to international students, scholars, and faculty registered with PCIV.

For more detailed information, telephone the PCIV office at 412-392-4513. The fax number is 412-392-2411 and the e-mail address is info@pciv.org.” [http://www.pitt.edu/~provost/ch6_acad_pciv.htm].

A outra grande universidade da cidade, Carnegie Mellon University, distribui um documento em pdf sobre o PCIV, que pode ser consultado em http://www.andrew.cmu.edu/user/hbarmer/portfolio/pciv.pdf.

Uma visita à página do PCIV no Facebook indica que em 2009 a organização ampliou seu escopo e se tornou GlobalPittsburgh: https://www.facebook.com/Pittsburgh-Council-for-International-Visitors-100419947877/. A nova organização tem um blog que pode ser consultado em https://globalpittsburgh.blogspot.com.br/2009/08/globalpittsburgh-expanding-mission-to.html.

2. Christmas International House (CIH)

Esta organização, que usa como “subtítulo” a descrição “A Holiday of Friendship with International Students”, tem como missão criar para estudantes estrangeiros nos Estados Unidos experiências de passar o Natal (e o Ano Novo, a despeito do nome) com famílias americanas. Quando eu me beneficiei desse serviço, ele era gratuito. Agora, aparentemente, é cobrado, mas o preço é bem menor do que o custo de passar uma semana em um hotel em alguma outra cidade – para ficar só no aspecto financeiro. No site (vide abaixo) se esclarece que a taxa cobrada se destina apenas a cobrir os custos operacionais de administrar um programa como esse nos Estados Unidos como um todo. As famílias que recebem os estudantes não recebem nenhuma remuneração, participando no programa na qualidade de voluntários que arcam com todos os seus custos. E as famílias que recebem o estudante estrangeiro lhe proporcionam inúmeros benefícios que um hotel não ofereceria, como passeios, excursões, idas a museus, parques, etc., para não mencionar todas as refeições, gratuitamente.  O estudante só arca com o custo de transporte entre o local em que mora  e o local em que reside a família que vai hospeda-lo.

Em três fins de ano eu me beneficiei desse programa, indo a Alexandria, VA, Harrisburg, PA e Charlotte, NC. Em Charlotte a experiência foi meio diferente. Uma igreja local, que tinha dependências para hospedar até 15 pessoas (inclusive, em alguns casos, famílias), aceitou um grupo de gente e lhes proporcionou uma equipe que organizou sua estada na cidade. O pessoal dormia nas instalações da igreja, onde também tomava café da manhã, e, depois, era apanhado por membros da igreja que seriam seus “hosts” naquele dia. Cada dia cada estudante tinha um host diferente, o que lhe permitia conhecer mais pessoas e usufruir de uma experiência mais diferenciada.

Vide o site da organização: http://www.christmasih.org/

Enfim: uma outra ideia original.

Alguém poderia copiar algumas dessas ideias em cidades acolhedoras, como Campinas, Curitiba, Florianópolis, não é?

Em São Paulo, 24 de Dezembro de 2017.

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